
Hoje reconheci que transporto conceitos muito mal definidos (ou abertos, como preferem os juristas).
O narcicismo, por exemplo. Imaginava os narcísicos elementos raros, algo marginais, claramente identificáveis: podiamos topá-los nas ruas a caminhar de rosto voltado para vidros, espelhos e outras superfícies reflectoras, a começar as frases com a primeira pessoa do singular, com movimento de rotação à volta dum eixo próprio - o umbigo.
Estava errada. Duplamente errada. Quanto ao número e quanto ao modo.
Pois, não são poucos, são muitos e não, não andam de espelho na mão, com olhar perdido e sorriso realizado.
Dando de barato que um baixo grau de narcisismo (saudável, diria um psi, à cautela) todos transportamos, insiro aqui os que não sabem ouvir (os outros), os que não sabem sentir (os outros!), os que não sabem amar (os outros!!).
O narcísico até ouve, sente e ama muito bem, o problema é que isso funciona exclusivamente para si: sente-se, ouve-se e ama-se muito bem.
Sentir os outros, ouvir os outros, amar os outros, exige trabalho.
A capacidade de nos relacionarmos com os outros, sejam amigos, amantes, filhos ou sócios, passa por ouvi-los, amá-los e senti-los. E isso não nasce connosco. Connosco nasce o egoísmo, a preemência da satisfação das nossas fomes, sedes e medos. Depois do nascimento temos de aprender a fazê-lo, sob pena de vivermos a usar o nosso próprio critério como medida universal.
E aí começa o sarilho.
É que a organização da sociedade não está voltada para a aprendizagem destas competências que podemos dizer básicas. Está é voltada para o individualismo e a competição. E esses reforçam os narcísicos.
Daí que hoje, como nunca, haja tantos pequenos e grandes adoradores de si próprios, desde o político prepotente ao opinador pago ou gratuito.
Todos cheios de certezas. Todos incapazes de ouvir, amar e sentir.
Para complicar, entra agora outra palavra e a sua ideia: a individualidade. Não tem nada a ver com o individualismo. Tem a ver com a riqueza interior com que cada um chega ao mundo, com a sua originalidade, com a sua essência interior. E essa é muito bem vinda. Mais, essa é a que temos de desenvolver após o nascimento porque nos vai fortalecer.
Por dar valor à nossa originalidade, damos valor à do outro e este deixa de ser o inimigo a abater. Já não é o concorrente dos afectos, dos espaços, dos tempos que queremos só nossos. É um ser humano que podemos amar, ouvir e sentir. Porque não nos ameaça nem nos põe em causa. Porque sabemos quem somos, que forças e fraquezas temos e porque acreditamos em nós. Sem narcisismo, sem encantamento, sem superioridade.
É um caminho difícil. Muitos ficarão a meio, perdidos de amores pelo seu reflexo e fechados dentro de si. Convencidos da sua verdade e incapazes de amar.