quarta-feira, 29 de outubro de 2008
poesia visual
domingo, 26 de outubro de 2008
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
o que diz molero
Apenas água.
Água, mãe da pureza.
(O sangue que te dou é água rubra)
Água de tudo.
Mas água viva.
E antes que o silêncio da água nos descubra.
Água das fontes para os teus ouvidos.
Água da minha mão na tua mão.
Água para os veleiros adormecidos nos telhados de cada solidão.
Apenas água.
E por falar em água
(água de tudo, límpida e corrente),
só eu sei como a água dos teus sonhos canta no coração de toda a gente.
Dinis Machado
antídotos do amor
Isso significa que a mulher é necessária na medida em que permanece uma ideia em que o homem projecta a sua própria transcedência; mas que é nefasta enquanto realidade ojectiva, existindo por si e limitada a si. É recusando casar-se com a noiva que Kierkegaard pensa ter estabelecido a única relação válida com a mulher. (...)
O homem conseguiu escravizar a mulher, mas desse modo despojou-a do que lhe tornava a posse desejável. Integrada na família e na sociedade, a magia da mulher dissipa-se em vez de se transfigurar; reduzida à condição de serva, ela não é mais a presa indomada em que se encarnam todos os tesouros da Natureza.
Desde o aparecimento do amor cortês , é lugar-comum dizer que o casamento mata o amor. Demasiado desprezada ou demasiado respeitada, por demais quotidiana, a esposa já não é um objecto erótico. Os ritos do casamento destinam-se primitivamente a defender o homem contra a mulher, ela torna-se sua propriedade; mas tudo o que possuimos nos possui; o casamento é também uma servidão para o homem; é então que ele se vê preso na armadilha da Natureza. Por ter desejado uma jovem viçosa, o homem deve sustentar toda a vida uma gorda matrona, uma velha encarquilhada; a jóioa delicada destinada a embelezer-lhe a existência torna-se um fardo odioso(...)
Porém, mesmo que a mulher seja jovem, há no casamento uma mistificação, pois, pretendendo socializar o erotismo, só consegue aniquilá-lo. É que o erotismo implica uma reivindicação do instante contra o tempo, do indivíduo contra a colectividade; ele afirma a separação contra a comunicação; é rebelde a todo o regulamento; contém um princípio hostil à sociedade.(...)
O adultério só pode desaparecer com o próprio casamento. Porque o fim do casamento é, em suma, imunizar o homem contra a sua mulher: mas as outras mulheres conservam, a seus olhos, uma vertiginosa atracção; é para elas que ele se volta.
Simone de Beauvoir - "o segundo sexo"
(vale para os homens - e para as mulheres?
vale para os casamentos - e para os outros formatos a dois?)
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
não existe amor sem fidelidade
vinicius de moraes
chegada 19.10.1913
partida 09.07.1980
Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... — não tem nenhum valor.
Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.
Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.
Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.
É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...
Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?
Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.
É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor.
Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor.
(parabéns poeta, onde estiveres;
e obrigada pelas palavras cantadas que te nasceram na alma e quiseste mostrar aos outros)
assunto sério
pasmem ou divirtam-se, o resultado é o mesmo
http://www.invertired.com/quimu/videos/25/34
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
teresa de ávila
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
gerês



caminhos calcados por muitos
a que o silêncio regressa
como se nunca tivesse sido cortado
terra de cores
carícia de ventos
planados por águias
música de águas
tojo, giesta, tomilho e lírio
feto, urze,
pedras que falam
árvores que respiram
pinheiro
cipreste
vidoeiro
carvalho
salgueiro
azevinho
eco de gritos com asas
soltas, voadas, contentes
por não ver paredes
entre elas e o nada
simone
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
o mundo ao contrário
onde vais?
perguntas tu ainda meio a dormir
nao sei bem
respondo eu sem saber o que vestir
porque sais?
ainda é cedo e tu não sabes mentir
nem eu sei
só sei que fica tarde e tenho de ir
bem depois
de estar na rua instalou-se uma dor
por nós dois
talvez sair tivesse sido melhor
se assim foi
porque me sinto eu a morrer de amor?
tenho a noite a atravessar
doi-me não ir
mas não me deixas voltar
se gosto de ti
se gostas de mim
se isto nao chega tens o mundo ao contrário
se gosto de ti
se gostas de mim
se isto nao chega tens o mundo ao contrário
o mundo ao contrário
sábado, 4 de outubro de 2008
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
reciprocidade e autenticidade ou reflexos complacentes
(...)Em muitos homens essa exigência degrada-se; em lugar de uma revelação exacta, eles buscam no fundo de dois olhos vivos uma imagem aureolada de admiração e gratidão, divinizada. Se a mulher foi, muitas vezes, comparada à água , é, entre outros motivos, porque é o espelho em que o Narciso macho se contempla; debruça-se sobre ela de boa ou má-fé. Mas o que, em todo o caso, ele lhe pede é que seja fora dele tudo o que não pode apreender em si, pois a inferioridade do existente não passa de nada e, para se atingir, ele precisa projectar-se num objecto.
A mulher é para ele a suprema recompensa, porque é sob uma forma exterior que pode possuir, na sua carne, a sua própria apoteose. E é esse "monstro incomparável", isto é, a si mesmo, que ele possui quando aperta nos braços o ser que lhe resume o Mundo e a quem impôs os seus valores e leis. Então, unindo-se a esse Outro que fez seu, espera atingir-se a si próprio.
Tesouro, presa, jogo e risco, musa, guia, juiz, mediadora, espelho, a mulher é o Outro em que o sujeito se supera sem ser limitado, que a ele se opõe sem o negar. Ela é o Outro que se deixa anexar sem deixar de ser o outro. E, desse modo, ela é tão necessária à alegria do homem e ao seu triunfo, que se pode dizer que, se ela não existisse, os homens a teriam inventado.
(Simone de Beauvoir - o segundo sexo)
Bhagavad-gita
“ Tudo o que fizeres, tudo o que comeres, tudo o que ofereceres ou deres e quaisquer austeridades que executares – faz isto, ó filho de Kunti, como uma oferenda a Mim.”
“Desse modo, ficarás livre do cativeiro do trabalho e dos seus resultados auspiciosos e inauspiciosos. Com a mente fixa em Mim neste princípio de renúncia, libertar-te-ás e virás a Mim.”
Estes dois versos estão inseridos no Cap. 9º do BG intitulado “O conhecimento mais confidencial”
O BG é um clássico indiano sobre Teologia, Filosofia e Yoga constituído por 700 versos e reproduz cerca de 45 minutos de conversa entre Krishna e Arjuna, antes dum momento histórico decisivo, a Batalha de Kuruksetra, há cerca de 5000 anos, na Índia, num local que ainda hoje é visitado.
Ao longo da conversa, Krishna vai falando de diferentes assuntos:
-a eternidade da Alma, as limitações do corpo e dos aspectos com ele relacionados, a reencarnação e as características das pessoas santas (Cap. 2º)
-a lei do Karma, o conhecimento transcendental acerca do Eu, do Supremo e da relação entre ambos (Cap. 3º)
-a importância de ter um mestre espiritual (Cap. 4º)
-a renúncia aos frutos do trabalho e o resultado de tal renúncia (Cap. 5º)
- o método mecânico de Yoga, Astanga Yoga (Cap. 6º)
- as diferentes energias do Senhor e ser Ele a causa e origem de tudo quanto existe (Cap. 7º)
-a importância de recordar Deus ao longo da vida e principalmente na hora da morte (Cap. 8º)
O Cap. 9º trata de Bhakti Yoga, a nossa relação amorosa com a Suprema Personalidade de Deus e é intitulado “O conhecimento mais confidencial” chegando Krishna a chamar-lhe o Rei do conhecimento, no verso 1.
Porque é que Este conhecimento é o mais confidencial em relação a tudo quanto foi dito por Krishna ao longo dos 8 primeiros capítulos do BG?
- o conhecimento sobre a matéria e sobre a relação entre os seres vivos enquanto corpos é vulgar e acessível;
-a existência da alma e a diferença dela com o corpo já é conhecimento espiritual, mais refinado e superior;
-o conhecimento de como ultrapassar a materialidade e transcender a influencia dos 3 modos da natureza material é mais superior e mais difícil;
- por fim o conhecimento mais confidencial, mais secreto, o Rei do conhecimento é sobre BY pois trata-se de restabelecer a nossa eterna relação amorosa com o Supremo, com Deus, Krishna.
Em versos anteriores no Cap. 9º, Sri Krishna fala do devoto puro (v 14,22 e 26) aquela pessoa extremamente avançada que é consciente de Deus 24 h por dia ou seja, que coloca Krishna no centro do seu coração, mente, actividades e pensamentos. A pessoa 100% rendida a Deus.
Ora essa posição é muito rara e difícil de alcançar, dai que o próprio Senhor diga que temos uma alternativa se e enquanto não nos conseguirmos render – é desta alternativa que fala o verso 27 e as consequências são garantidas no verso 28.
“Tudo o que fizeres, faz como uma oferenda a Mim e assim libertas-te da materialidade e vens a Mim”
Estes versos falam de pessoas como nós, ou seja pessoas apegadas aos seus trabalhos e enredadas em actividades materiais : trabalhar, educar os filhos, ir às compras, relacionar-se com a família e amigos, viajar, divertir-se, fazer desporto, preocupar-se com o presente e o futuro, ir ao médico e as repartições públicas, ir passear o cão, ter contas para pagar, ter dividas, tentar ser feliz, etc.
Para nós a proposta de Deus, Krishna é que tudo o que já estamos a fazer, continuemos do mesmo modo, mas que tudo passe a ser feito como uma oferenda a Ele.
Isto significa uma nova atitude interna, uma nova consciência, um novo estado de alma, uma nova mentalidade: externamente continuamos a parecer quem éramos mas internamente adoptamos uma postura espiritualista.
Tudo o que fazemos, fazemos como uma oferenda a Deus:
- cozinhamos os alimentos que Krishna diz aceitar e comemos depois de lhos oferecer;
-educamos os nossos filhos para que sejam crentes em Deus e espiritualistas na sua conduta;
-tentamos melhorar as condições que nos rodeiam pensando no Planeta como criação divina;
-vemos o nosso cônjuge, familiares, amigos e todos os seres vivos como almas espirituais;
-o nosso trabalho como fonte de rendimentos que podemos usar para investirmos no nosso avanço espiritual e o local onde podemos aprimorar as nossas qualidades enquanto seres humanos espirituais;
-vamos às compras e temos uma atitude de ecologia espiritual,
- somos vegetarianos por misericórdia para como os filhos de Deus,
-aceitamos os outros religiosos como nossos irmãos espirituais,
- arrumamos a nossa casa para que seja e porque é o nosso Templo,
- vemos as nossas dificuldades como resultado do Karma de vidas passadas e oportunidade de avançarmos espiritualmente,
- damos prioridade às actividades e às pessoas que incrementam a nossa vida espiritual,
-afastamo-nos de actividades e pessoas que ponham em risco a nossa vida espiritual,
- organizamos o nosso dia de modo a termos sempre ocasião de fazermos uma oração a Deus e de meditarmos nas suas qualidades e actividades de modo a “Lembrarmos Sempre Krishna e nunca nos esquecermos Dele.”
Agindo assim, agimos como verdadeiros renunciantes, isto é, sem apego aos resultados das nossas actividades pois todos os frutos são oferecidos a Krishna, o que nos liberta das reaçoes auspiciosas e inauspiciosas do trabalho.
Esta liberdade face a qualquer tipo de reaçoes, positivas ou negativas, das nossas actividades faz com que não acumulemos Karma e que nos possamos libertar do plano da materialidade de tal modo que na continuação de tais acções sem resultados acabamos por nos libertar completamente e no futuro podemos ingressar nos planetas espirituais e reviver a nossa eterna relação pessoal com Krishna de modo presencial e directo.
Krishna é tão misericordioso que dá mesmo chance a pessoas como nós, ainda muito materialistas, propondo um meio muito simples e prático - que tudo seja feito como uma oferenda a ELE – e garantindo o melhor resultado: a reentrada nos planetas espirituais e o reencontro com Radha e Krishna.
È uma excelente troca!
(obrigada purnamasi)
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
o poço
em teu fosso de silêncio,
em teu abismo de orgulhosa cólera,
e mal consegues
voltar,
trazendo restos
do que achaste
pelas profunduras da tua existência.
Meu amor, o que encontras
em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?
O que vês, de olhos cegos,
rancorosa e ferida?
Não acharás, amor,
no poço em que cais
o que na altura guardo para ti:
um ramo de jasmins todo orvalhado,
um beijo mais profundo que esse abismo.
Não me temas, não caias
de novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
e deixa que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me
sem que tu a dirijas,
porque foi carregada com um instante duro
e esse instante será desarmado em meu peito.
Radiosa me sorris
e minha boca fere.
Não sou um pastor doce
como em contos de fadas,
mas um lenhador que comparte contigo
terras, vento e espinhos das montanhas.
Dá-me amor, me sorri
e me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil,
não me firas a mim porque te feres.
Pablo Neruda
(não és um pastor doce mas um lenhador, que corta as árvores e fere a terra, que manuseia machados e usa o fogo;
lenhador do fim e da devastação, da aridez e do vento frio;
lenhador da ausência e do que já foi, da mudança e do renascimento;
lenhador machado, homem instrumento;
como posso compartir contigo terras, vento e espinhos das montanhas?)
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
yo-yo ma
dia mundial da música
homenagem às minhas filhas, ao cello, à fantasia, ao sonho e à vida que ele comanda





