"Pela mulher", escreve Kierkegaard, em In Vino Veritas,"a idealidade entra na vida, e sem ela que seria do homem? Mais de um homem se fez génio graças a uma jovem... mas nenhum se tornou génio graças a uma jovem de quem tivesse obtido a mão... É numa relação negativa que a mulher torna o homem produtivo na idealidade... Relações negativas com a mulher podem tornar-se infinitos... relações positivas com a mulher tornam o homem finito nas mais amplas proporções."
Isso significa que a mulher é necessária na medida em que permanece uma ideia em que o homem projecta a sua própria transcedência; mas que é nefasta enquanto realidade ojectiva, existindo por si e limitada a si. É recusando casar-se com a noiva que Kierkegaard pensa ter estabelecido a única relação válida com a mulher. (...)
O homem conseguiu escravizar a mulher, mas desse modo despojou-a do que lhe tornava a posse desejável. Integrada na família e na sociedade, a magia da mulher dissipa-se em vez de se transfigurar; reduzida à condição de serva, ela não é mais a presa indomada em que se encarnam todos os tesouros da Natureza.
Desde o aparecimento do amor cortês , é lugar-comum dizer que o casamento mata o amor. Demasiado desprezada ou demasiado respeitada, por demais quotidiana, a esposa já não é um objecto erótico. Os ritos do casamento destinam-se primitivamente a defender o homem contra a mulher, ela torna-se sua propriedade; mas tudo o que possuimos nos possui; o casamento é também uma servidão para o homem; é então que ele se vê preso na armadilha da Natureza. Por ter desejado uma jovem viçosa, o homem deve sustentar toda a vida uma gorda matrona, uma velha encarquilhada; a jóioa delicada destinada a embelezer-lhe a existência torna-se um fardo odioso(...)
Porém, mesmo que a mulher seja jovem, há no casamento uma mistificação, pois, pretendendo socializar o erotismo, só consegue aniquilá-lo. É que o erotismo implica uma reivindicação do instante contra o tempo, do indivíduo contra a colectividade; ele afirma a separação contra a comunicação; é rebelde a todo o regulamento; contém um princípio hostil à sociedade.(...)
O adultério só pode desaparecer com o próprio casamento. Porque o fim do casamento é, em suma, imunizar o homem contra a sua mulher: mas as outras mulheres conservam, a seus olhos, uma vertiginosa atracção; é para elas que ele se volta.
Simone de Beauvoir - "o segundo sexo"
(vale para os homens - e para as mulheres?
vale para os casamentos - e para os outros formatos a dois?)
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