sexta-feira, 3 de outubro de 2008

reciprocidade e autenticidade ou reflexos complacentes

Um homem é julgado pelos semelhantes devido ao que faz, na sua objectividade e segundo as medidas gerais. Mas algumas das suas qualidades, e entre outras as qualidades vitais, só podem interessa à mulher; ele é viril, agradável, sedutor, terno, cruel, unicamente em função dela: se é a essas mais secretas virtudes que dá valor, ele tem necessidade absoluta dela; por ela conhecerá o milagre de apresentar-se omo Outro, Outro que é também o seu eu mais profundo.
(...)Em muitos homens essa exigência degrada-se; em lugar de uma revelação exacta, eles buscam no fundo de dois olhos vivos uma imagem aureolada de admiração e gratidão, divinizada. Se a mulher foi, muitas vezes, comparada à água , é, entre outros motivos, porque é o espelho em que o Narciso macho se contempla; debruça-se sobre ela de boa ou má-fé. Mas o que, em todo o caso, ele lhe pede é que seja fora dele tudo o que não pode apreender em si, pois a inferioridade do existente não passa de nada e, para se atingir, ele precisa projectar-se num objecto.
A mulher é para ele a suprema recompensa, porque é sob uma forma exterior que pode possuir, na sua carne, a sua própria apoteose. E é esse "monstro incomparável", isto é, a si mesmo, que ele possui quando aperta nos braços o ser que lhe resume o Mundo e a quem impôs os seus valores e leis. Então, unindo-se a esse Outro que fez seu, espera atingir-se a si próprio.
Tesouro, presa, jogo e risco, musa, guia, juiz, mediadora, espelho, a mulher é o Outro em que o sujeito se supera sem ser limitado, que a ele se opõe sem o negar. Ela é o Outro que se deixa anexar sem deixar de ser o outro. E, desse modo, ela é tão necessária à alegria do homem e ao seu triunfo, que se pode dizer que, se ela não existisse, os homens a teriam inventado.

(Simone de Beauvoir - o segundo sexo)

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