sábado, 31 de maio de 2008

poema resgatado

foto: j. horácio costa


O que eu queria era amar-te
Sem recear por perder-te
Amar-te inteira e sorrindo
Por saber que, dia findo
Com teu riso voltarias
Sabendo que nunca irias
Para fora deste verso
E se fosses sempre vinhas
Com tuas mãos para as minhas
A celebrar o regresso

O que queria era ser
De fases como a lua
Ter fases de estar sozinha
E fases de pequenina
Me deitar e ser só tua

O que eu queria era estar
Sempre certa do teu rumo
Deixar-te por mares errar
Por esses céus ir voar
Como o fazem as fadas
A saber que tudo tens
e não precisas de mim
A voltares quando quiseres
Para comigo encontrares
Os pedacinhos de nadas
Que fazem o teu jardim

A voltar quando sentisses
Vontade de descansar
De rir e de vir contar
O que viste e o que fizeste
Dos dias que lá passaste
O que gostaste e o que sabes
As montanhas que subiste
Os sonhos que repartiste
Os voos que dividiste
Com outras nuvens e aves

Dos voos da tua alma
Dos trapézios sem rede
Dos lagos da tua calma
Das águas, da tua sede
Das alegrias de antes…
Das descidas fulgurantes
Desde o céu até ao chão
E saber que se quisesses
Poderias vir pousar
Na palma da minha mão

A voltar porque sabias
Que a parte que te falta
É do tamanho da minha
E do vazio que trago
Quando eu fico sozinha.

(simone)

sexta-feira, 30 de maio de 2008

carta de amor

Assim que coloco uma carta no correio, sinto-me tão frustrada, que preciso começar uma outra. Tenho sempre a impressão de não ter dito nada, certamente porque não se pode dizer o amor. Hesitei em apagar a luz e me abandonar a pensamentos sonolentos sobre você: escrever demanda maiores esforços, mas o som do que se escreve é mais verdadeiro, mesmo que haja nisso algo de ilusão. Na realidade, pouco importa para você que esta carta seja escrita neste exato momento, mas para mim é muito importante que eu lhe diga agora o que estou sentindo.
Agora - que palavra estranha, já que até mesmo a hora de nossos relógios difere. Ela significa muito mais quando nossos lábios se encontram, e quando podemos dizer: “Agora, agora eu o tenho”. Você não dá tanta importância assim às palavras, eu sei; a seus olhos tenho um amor excessivo por elas, sempre faço meus maxilares e a minha caneta trabalharem demais. Você tem razão, mas só as palavras podem me ajudar a esperar por você.
Fiquei profundamente comovida ao ler que você gosta, tanto quanto dos meus olhos, da minha maneira de amar. Ela nada mais é do que o meu amor por você. Eu sempre possuí estes olhos, mas jamais amei alguém desta maneira, saiba você, com tanto prazer no amor e tanto amor no prazer, tanta excitação e tanta paz, justamente da maneira que você gosta. Eu me sinto uma mulher nos braços de um homem, real e totalmente, e isso significa muito, muito para mim. Nada de melhor poderia me acontecer. Boa-noite, querido, é díficil dizê-lo, muito mais díficil do que antes de meu retorno a Wabansia. Venha, querido, venha e segure-me em suas mãos fortes, doces, ávidas. Eu espero por elas, eu espero por você.

Sua Simone

* Carta de Simone de Beauvoir ao escritor americano Nelson Algren

vamos




vamos para a montanha azul


procurar jardins de pedra
onde podemos ser índios
ter nuvens nos pés


caminhos
escadas
de gelo e água


porque havemos de ficar
vento e ar


partir
estar
preparados para voar


subir e ver


e sentir
tanto espaço para amar


cancion de la paz

terça-feira, 13 de maio de 2008

quero-te para além das coisas justas



Quero-te para além das coisas justas
e dos dias cheios de grandeza.
A dor não tem significado quando ma roubam as árvores,
as ágatas, as águas.
O meu sol vem de dentro do teu corpo,
a tua voz respira a minha voz.
De quem são os ídolos, as culpas, as vírgulas
dos beijos? Discuto esta noite
apenas o pudor de preferir-te
entre as coisas vivas.


(Joaquim Pessoa)

rios que vão dar ao mar

Posted by Picasa

segunda-feira, 12 de maio de 2008

poema temperamental


Ó caralho! Ó caralho!

Quem abateu estas aves?

Quem é que sabe? quem é

que inventou a pasmaceira?

Que puta de bebedeira

é esta que em nós se vem

já desde o ventre da mãe

e que tem a nossa idade?

Ó caralho! Ó caralho!

Isto de a gente sorrir

com os dentes cariados

esta coisa de gritar

sem ter nada na goela

faz-nos abrir a janela.

Faz doer a solidão.

Faz das tripas coração.

Ó caralho! Ó caralho!

Porque não vem o diabo

dizer que somos um povo

de heróicos analfabetos?

Na cama fazemos netos

porque os filhos não são nossos

são produtos do acaso

desde o sangue até aos ossos.

Ó caralho! Ó caralho!

Um homem mede-se aos palmos

se não há outra medida

e põe-se o dedo na ferida

se o dedo lá for preciso.

Não temos que ter juízo

o que é urgente é ser louco

quer se seja muito ou pouco.

Ó caralho! Ó caralho!

Porque é que os poemas dizem

o que os poetas não querem?

Porque é que as palavras ferem

como facas aguçadas

cravadas por toda a parte?

Porque é que se diz que a arte

é para certas camadas?

Ó caralho! Ó caralho!

Estes fatos por medida

que vestimos ao domingo

tiram-nos dias de vida

fazem guardar-nos segredos

e tornam-nos tão cruéis

que para comprar anéis

vendemos os próprios dedos.

Ó caralho! Ó caralho!

Falta mudar tanta coisa.

Falta mudar isto tudo!

Ser-se cego surdo e mudo

entre gente sem cabeça

não é desgraça completa.

É como ser-se poeta

sem que a poesia aconteça.

Ó caralho! Ó caralho!

Nunca ninguém diz o nome

do silêncio que nos mata

e andamos mortos de fome

(mesmo os que trazem gravata)

com um nó junto à garganta.

O mal é que a gente canta

quando nos põem a pata.

Ó caralho! Ó caralho!

O melhor era fingir

que não é nada connosco.

O melhor era dizer

que nunca mais há remédio

para a sífilis. Para o tédio.

Para o ócio e a pobreza.

Era melhor. Com certeza.

Ó caralho! Ó caralho!

Tudo são contas antigas.

Tudo são palavras velhas.

Faz-se um telhado sem telhas

para que chova lá dentro

e afogam-se os moribundos

dentro do guarda-vestidos

entre vaias e gemidos.

Ó caralho! Ó caralho!

Há gente que não faz nada

nem sequer coçar as pernas.

Há gente que não se importa

de viver feita aos bocados

com uma alma tão morta

que os mortos berram à porta

dos vivos que estão calados.

Ó caralho! Ó caralho!

Já é tempo de aprender

quanto custa a vida inteira

a comer e a beber
e a viver dessa maneira.

Já é tempo de dizer

que a fome tem outro nome.

Que viver já é ter fome.

Ó caralho! Ó caralho!Ó caralho!



(Joaquim Pessoa)

domingo, 11 de maio de 2008

a loja da verdade


O homem passeava pelas ruazinhas da cidade provinciana.

Como dispunha de tempo, parava alguns instantes à frente de cada montra, de cada loja, de cada praça.

Ao virar de uma esquina, encontrou-se, de repente, perante um modesto estabelecimento, cuja montra estava vazia. Intrigado, aproximou-se do vidro e encostou a cara para poder espreitar lá para dentro... No interior, via-se apenas um cartaz escrito à mão, a anunciar:
Loja da Verdade
O homem ficou surpreendido. Pensou que era um nome a brincar, mas não conseguiu imaginar o que lá venderiam.

Entrou. Aproximou-se da rapariga que estava ao balcão e perguntou:- Desculpe, esta é a loja da verdade?

- É sim, senhor. Que tipo de verdade procura? Verdade parcial, verdade relativa, verdade estatística, verdade completa?

Portanto, vendia-se ali a verdade. Nunca imaginara que fosse possível.

Entrar numa loja e sair com a verdade era maravilhoso.

- Verdade completa - respondeu o homem, sem hesitar.

«Estou tão cansado de mentiras e falsificações», pensou. «Não quero mais generalizações nem justificações, enganos ou fraudes.»

- Verdade plena! - ratificou.- Está bem, meu senhor. Siga-me.

A rapariga acompanhou o cliente a outro sector e, apontando para um vendedor de rosto sério, disse-lhe:

- Aquele senhor vai atendê-lo.

O vendedor aproximou-se e esperou que o homem falasse.

- Venho comprar a verdade completa.

- Ah. Perdoe-me, mas o senhor sabe o preço?

- Não, qual é? - respondeu casualmente.

Na realidade, sabia que estava disposto a pagar fosse o que fosse pela verdade absoluta.

- Se o senhor a levar - disse o vendedor -, o preço é nunca mais tornar a ter paz de espírito.

O homem foi percorrido de alto a baixo por um arrepio.

Nunca imaginara que o preço fosse tão elevado.

- Obri... obrigado... desculpe... - balbuciou.

Deu meia volta e saiu da loja, de olhos postos no chão.

Sentiu-se um pouco triste ao perceber que ainda não estava preparado para a verdade absoluta, que ainda precisava de algumas mentiras para ter descanso, alguns mitos e idealizações nos quais se pudesse refugiar, algumas justificações para não ter de se enfrentar a si mesmo...

«Talvez um dia, mais tarde», pensou.


(Jorge Bucay)

sexta-feira, 9 de maio de 2008

dedicado àquele que comia minhocas por ela


o amor no tempo da madureza





Deus me deu um amor no tempo de madureza,


quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.


Deus-ou foi talvez o Diabo-deu-me este amor maduro,


e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.





Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos


e outros acrescento aos que amor já criou.


Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso


e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.





Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia


e cansado de mim julgava que era o mundo


um vácuo atormentado, um sistema de erros.


Amanhecem de novo as antigas manhãs


que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.


Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra


imensa e contraída como letra no muro


e só hoje presente.





Deus me deu um amor porque o mereci.


De tantos que já tive ou tiveram em mim,


o sumo se espremeu para fazer vinho


ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.




E o tempo que levou uma rosa indecisa


a tirar sua cor dessas chamas extintas


era o tempo mais justo. Era tempo de terra.


Onde não há jardim, as flores nascem de um


secreto investimento em formas improváveis.






Hoje tenho um amor e me faço espaçoso


para arrecadar as alfaias de muitos


amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes,


e ao vê-los amorosos e transidos em torno,


o sagrado terror converto em jubilação.


Seu grão de angústia amor já me oferece


na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia


os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura


e o mistério que além faz os seres preciosos


à visão extasiada.





Mas, porque me tocou um amor crepuscular,


há que amar diferente. De uma grave paciência


ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia


tenha dilacerado a melhor doação.


Há que amar e calar.



Para fora do tempo arrasto meus despojos


e estou vivo na luz que baixa e me confunde.




Carlos Drummond de Andrade





(comia, mas já não come)


segunda-feira, 5 de maio de 2008

gita



"Eu que já andei

Pelos quatro cantos do mundo

Procurando

Foi justamente num sonho

Que Ele me falou


"Às vezes você me pergunta

Por que é que eu sou tão calado

Não falo de amor quase nada

Nem fico sorrindo ao teu lado...


Você pensa em mim toda hora

Me come, me cospe, me deixa

Talvez você não entenda

Mas hoje eu vou lhe mostrar...


Eu sou a luz das estrêlas

Eu sou a cor do luar

Eu sou as coisas da vida

Eu sou o mêdo de amar...


Eu sou o mêdo do fraco

A força da imaginação

O blefe do jogador

Eu sou, eu fui, eu vou..


Gita! Gita! Gita!Gita! Gita!


Eu sou o seu sacrifício

A placa de contra-mão

O sangue no olhar do vampiro

E as juras de maldição...


Eu sou a vela que acende

Eu sou a luz que se apaga

Eu sou a beira do abismo

Eu sou o tudo e o nada...


Por que você me pergunta?

Perguntas não vão lhe mostrar

Que eu sou feito da terra

Do fogo, da água e do ar...


Você me tem todo dia

Mas não sabe se é bom ou ruim

Mas saiba que eu estou em você

Mas você não está em mim...


Das telhas eu sou o telhado

A pesca do pescador

A letra "A" tem meu nome

Dos sonhos eu sou o amor...


Eu sou a dona de casa

Nos pegue pagues do mundo

Eu sou a mão do carrasco

Sou raso, largo, profundo...


Gita! Gita! Gita!Gita! Gita!


Eu sou a mosca da sopa

E o dente do tubarão

Eu sou os olhos do cego

E a cegueira da visão...


Eu!

Mas eu sou o amargo da língua

A mãe, o pai e o avô

O filho que ainda não veio

O início, o fim e o meio

O início, o fim e o meio


(Raul Seixas)

domingo, 4 de maio de 2008

silêncio amoroso













Preciso do teu silêncio

cúmplice
sobre minhas falhas.

Não fale.

Um sopro,

a menor vogal pode me desamparar.


E se eu abrir a boca

minha alma vai rachar.

O silêncio,

aprendo, pode construir.

É um mododenso/tenso- de coexistir.

Calar, às vezes,é fina forma de amar.



(Affonso Romano de Sant'Anna)

nossa sabedoria é a dos rios



Nossa sabedoria é a dos rios.

Não temos outra.

Persistir. Ir com os rios,

onda a onda.


Os peixes cruzarão nossos rostos vazios.

Intactos passaremos sob a correnteza

feita por nós e o nosso desespero.

Passaremos límpidos.


E nos moveremos,

rio dentro do rio,

corpo dentro do corpo,

como antigos veleiros.

(Carlos Nejar)

é no meio da aflição que tantas coisas ficam claras


Recusa-te a cair.

Se não puderes recusar-te a cair,

recusa-te a ficar no chão.

Se não puderes recusar-te a ficar no chão,

ergue o teu coração aos céus

e, tal como uma mendiga faminta,

pede que to encham,

e ele será cheio.

Podem empurrar-te para baixo.

Podem impedir-te de te levantares.

Mas ninguém pode impedir-te

de elevares o teu coração aos céus,

só tu.

É no meio da aflição

que tantas coisas ficam claras.

Quem diz que nada de bom

resultou disso

ainda não está escutando.


(Clarissa Pinkola Estés)

sexta-feira, 2 de maio de 2008

o meu amor é uma árvore


abrigo-me à sua sombra
e refresco
embalo-me nos seus ramos
e adormeço
acaricio-me com os seus galhos
e alegro
afundo-me no seu tronco
e renasço

arroz aromático

-1 lima ou limão
-raiz de gengibre
-200 gramas de arroz

Preparação

Com a casca da lima ou do limão cortam-se tiras finas.
Retira-se um pedaço de 4 ou 5 centimetros da raíz do gengibre, descasca-se e corta-se em pedaços.
Coloca-se a casca e o gengibre num tacho com meio litro de água fria e sal.
Quando ferver e acrescenta-se o arroz previamente lavado.
Com o tacho tapado, deixa-se o arroz cozer cerca de 10 minutos.