sexta-feira, 30 de maio de 2008

carta de amor

Assim que coloco uma carta no correio, sinto-me tão frustrada, que preciso começar uma outra. Tenho sempre a impressão de não ter dito nada, certamente porque não se pode dizer o amor. Hesitei em apagar a luz e me abandonar a pensamentos sonolentos sobre você: escrever demanda maiores esforços, mas o som do que se escreve é mais verdadeiro, mesmo que haja nisso algo de ilusão. Na realidade, pouco importa para você que esta carta seja escrita neste exato momento, mas para mim é muito importante que eu lhe diga agora o que estou sentindo.
Agora - que palavra estranha, já que até mesmo a hora de nossos relógios difere. Ela significa muito mais quando nossos lábios se encontram, e quando podemos dizer: “Agora, agora eu o tenho”. Você não dá tanta importância assim às palavras, eu sei; a seus olhos tenho um amor excessivo por elas, sempre faço meus maxilares e a minha caneta trabalharem demais. Você tem razão, mas só as palavras podem me ajudar a esperar por você.
Fiquei profundamente comovida ao ler que você gosta, tanto quanto dos meus olhos, da minha maneira de amar. Ela nada mais é do que o meu amor por você. Eu sempre possuí estes olhos, mas jamais amei alguém desta maneira, saiba você, com tanto prazer no amor e tanto amor no prazer, tanta excitação e tanta paz, justamente da maneira que você gosta. Eu me sinto uma mulher nos braços de um homem, real e totalmente, e isso significa muito, muito para mim. Nada de melhor poderia me acontecer. Boa-noite, querido, é díficil dizê-lo, muito mais díficil do que antes de meu retorno a Wabansia. Venha, querido, venha e segure-me em suas mãos fortes, doces, ávidas. Eu espero por elas, eu espero por você.

Sua Simone

* Carta de Simone de Beauvoir ao escritor americano Nelson Algren

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