quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

último dia do ano

que 2009 me traga outros rios



que caminhe nas suas margens



que escute a sua música


que neles lave o meu corpo


que a sua água me corra nas veias

que a sua força me alegre

serra da cabreira



aqui não é preciso relógio
aqui não é preciso ter horas
aqui não é preciso ter pressa

aqui mudam-se os planos ao sabor do vento
aqui encontram-se riachos, colinas,
penedos gigantescos
milagres celtas

muros mais de musgo que de pedra
gente que fala à janela aos que passam
patos que não sabem nadar
picapaus amarelos

aqui encontram-se os cheiros perdidos
nas matas, nas casas, nas roupas
aqui podemos olhar e ver
e aninhar-nos, enroscados, no nosso colo

magari

domingo, 28 de dezembro de 2008

olá inverno

21 de dezembro

a caminho da borrageira



sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

na montanha


- Como é que descubro a minha Outra Parte pela Tradição do Sol?
- Essa é a grande busca das pessoas sobre a face da Terra - o Mago repetiu, sem querer, as mesmas palavras de Wicca. Talvez tivessem aprendido com o mesmo Mestre, pensou Brida.
- E a Tradição do Sol colocou no mundo, para todas as pessoas verem, o sinal da sua Outra Parte: o brilho dos olhos.
- Já vi muitos olhos brilharem -disse Brida. - Hoje mesmo, no bar, vi os seus olhos brilharem. Essaé a maneira que todas as pessoas procuram.
"Já se esqueceu da sua oração ", pensou o Mago. Estava, de novo, a acreditar que era diferente dos outros. "E incapaz de reconhecer o que Deus lhe mostra tão generosamente."


- Não há pessoas que não consigam encontrar a sua Outra Parte, Brida-disse, alto, o Mago, para as plantas do seu jardim. Mas, no fundo, percebeu que também ele, apesar de conhecer a Tradição há tantos anos, ainda precisava de reforçar a sua fé e estava a falar para si mesmo.
- Todos nós, nalgum momento das nossas vidas, nos cruzamos com ela e reconhecêmo-la - continuou.
- Se eu não fosse um Mago e não visse o ponto no teu ombro esquerdo, demoraria um pouco mais a aceitar-te. Mas tu lutarias por mim e um dia eu iria perceber o brilho nos teus olhos.



"Tão-pouco existe risco no Amor e tu vais aprender isso por ti mesma. Há milhares de anos que as pessoas se poucuram e se encontram"
Mas, de repente, deu-se conta de que podia estar enganado. Havia sempre um risco, um único risco.
Que uma mesma pessoa se cruzasse com mais de uma Outra Parte na mesma encarnação.
Isso também acontecia há milénios.



Brida - Paulo Coelho

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

estrada




Meu amor não quero mais palavras rasgadas
Nem o tempo cheio dos pedaços de nada
Não me dês sentidos para chegar ao fim
Meu amor...só quero ser feliz

Meu amor não quero mais razões p'ra apagar
O que nasce e renasce e nos faz acordar
A loucura faz medo se for medo o teu chão
Mas é ar e é terra dentro do coração
É ar e é terra dentro do coração

Meu amor não quero mais silêncio escondido
Nem a dor do que cai em cada gesto ferido
Quero janelas abertas e o sol a entrar
Quero o meu mundo interno dentro do teu olhar
Eu quero o meu mundo inteiro dentro do teu olhar

E hoje vê a estrada é feita para seguir
E hoje sente a vida é feita de sentir
E hoje vira do avesso o mundo e vê melhor
Deste lado é mais puro
É teu é tão maior
Deste lado é mais puro
É meu é tão maior

sábado, 6 de dezembro de 2008

amo-te

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pablo neruda

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

carta da corcunda ao serralheiro



Senhor António:


O senhor nunca há de ver esta carta, nem eu a hei de ver segunda vez porque estou tuberculosa, mas eu quero escrever-lhe ainda que o senhor o não saiba, porque se não escrevo abafo.

O senhor não sabe quem eu sou, isto é, sabe mas não sabe a valer. Tem-me visto à janela quando o senhor passa para a oficina e eu olho para si, porque o espero a chegar, e sei a hora que o senhor chega. Deve sempre ter pensado sem importância na corcunda do primeiro andar da casa amarela, mas eu não penso senão em si. Sei que o senhor tem uma amante, que é aquela rapariga loura alta e bonita; eu tenho inveja dela mas não tenho ciúmes de si porque não tenho direito a ter nada, nem mesmo ciúmes. Eu gosto de si porque gosto de si, e tenho pena de não ser outra mulher, com outro corpo e outro feitio, e poder ir à rua e falar consigo ainda que o senhor me não desse razão de nada, mas eu estimava conhecê-lo de falar.

O senhor é tudo quanto me tem valido na minha doença e eu estou-lhe agradecida sem que o senhor o saiba. Eu nunca poderia ter ninguém que gostasse de mim como se gostasse das pessoas que têm o corpo de que se pode gostar, mas eu tenho o direito de gostar sem que gostem de mim, e também tenho o direito de chorar, que não se negue a ninguém.

Eu gostava de morrer depois de lhe falar a primeira vez mas nunca terei coragem nem maneiras de lhe falar. Gostava que o senhor soubesse que eu gostava muito de si, mas tenho medo que se o senhor soubesse não se importasse nada, e eu tenho pena já de saber que isso é absolutamente certo antes de saber qualquer coisa, que eu mesmo não vou procurar saber.

Eu sou corcunda desde a nascença e sempre riram de mim. Dizem que todas as corcundas são más, mas eu nunca quis mal a ninguém. Além disso sou doente, e nunca tive alma, por causa da doença, para ter grandes raivas. Tenho dezanove anos e nunca sei para que é que cheguei a ter tanta idade, e doente, e sem ninguém que tivesse pena de mim a não ser por eu ser corcunda, que é o menos, porque é a alma que me dói, e não o corpo, pois a corcunda não faz dor.

Eu até gostava de saber como é a sua vida com a sua amiga, porque como é uma vida que eu nunca posso ter — e agora menos que nem vida tenho — gostava de saber tudo.

Desculpe escrever-lhe tanto sem o conhecer, mas o senhor não vai ler isso, e mesmo que lesse nem sabia que era consigo e não ligava importância em qualquer caso, mas gostaria que pensasse que é triste ser marreca e viver sempre só à janela, e ter mãe e irmãs que gostam da gente mas sem ninguém que goste de nós, porque tudo isso é natural e é a família, e o que faltava é que nem isso houvesse para uma boneca com os ossos às avessas como eu sou, como eu já ouvi dizer.

Houve um dia que o senhor vinha para a oficina e um gato se pegou à pancada com um cão aqui defronte da janela, e todos estivemos a ver, e o senhor parou, ao pé do Manuel das Barbas, na esquina do barbeiro, e depois olhou para mim, para a janela, e viu-me a rir e riu também para mim, e essa foi a única vez que o senhor esteve a sós comigo, por assim dizer, que isso nunca poderia eu esperar.

Tantas vezes, o senhor não imagina, andei à espera que houvesse outra coisa qualquer na rua quando o senhor passasse e eu pudesse outra vez ver o senhor a ver e talvez olhasse para mim e eu pudesse olhar para si e ver os seus olhos a direito para os meus.

Mas eu não consigo nada do que quero, nasci já assim, e até tenho que estar em cima de um estrado para poder estar à altura da janela. Passo todo o dia a ver ilustrações e revistas de modas que emprestam à minha mãe, e estou sempre a pensar noutra coisa, tanto que quando me perguntam como era aquela saia ou quem é que estava no retrato onde está a Rainha de Inglaterra, eu às vezes me envergonho de não saber, porque estive a ver coisas que não podem ser e que eu não posso deixar que me entrem na cabeça e me dêem alegria para eu depois ainda por cima ter vontade de chorar.

Depois todos me desculpam, e acham que sou tonta, mas não me julgam parva, porque ninguém julga isso, e eu chego a não ter pena da desculpa, porque assim não tenho que explicar porque é que estive distraída.

Ainda me lembro daquele dia que o senhor passou aqui ao Domingo com o fato azul claro. Não era azul claro, mas era uma sarja muito clara para o azul escuro que costuma ser. O senhor ia que parecia o próprio dia que estava lindo e eu nunca tive tanta inveja de toda a gente como nesse dia. Mas não tive inveja da sua amiga, a não ser que o senhor não fosse ter com ela mas com outra qualquer, porque eu não pensei senão em si, e foi por isso que invejei toda a gente, o que não percebo mas o certo é que é verdade.

Não é por ser corcunda que estou aqui sempre à janela, mas é que ainda por cima tenho uma espécie de reumatismo nas pernas e não me posso mexer, e assim estou como se fosse paralítica, o que é uma maçada para todos cá em casa e eu sinto ter que ser toda a gente a aturar-me e a ter que me aceitar que o senhor não imagina. Eu às vezes dá-me um desespero como se me pudesse atirar da janela abaixo, mas eu que figura teria a cair da janela? Até quem me visse cair ria e a janela é tão baixa que eu nem morreria, mas era ainda mais maçada para os outros, e estou a ver-me na rua como uma macaca, com as pernas à vela e a corcunda a sair pela blusa e toda a gente a querer ter pena mas a ter nojo ao mesmo tempo ou a rir se calhasse, porque a gente é como é e não como tinha vontade de ser.

O senhor que anda de um lado para o outro não sabe qual é o peso de a gente não ser ninguém. Eu estou à janela todo o dia e vejo toda a gente passar de um lado para o outro e ter um modo de vida e gozar e falar a esta e àquela, e parece que sou um vaso com uma planta murcha que ficou aqui à janela por tirar de lá.

O senhor não pode imaginar, porque é bonito e tem saúde o que é a gente ter nascido e não ser gente, e ver nos jornais o que as pessoas fazem, e uns são ministros e andam de um lado para o outro a visitar todas as terras, e outros estão na vida da sociedade e casam e têm baptizados e estão doentes e fazem-lhe operações os mesmos médicos, e outros partem para as suas casas aqui e ali, e outros roubam e outros queixam-se, e uns fazem grandes crimes e há artigos assinados por outros e retratos e anúncios com os nomes dos homens que vão comprar as modas ao estrangeiro, e tudo isto o senhor não imagina o que é para quem é um trapo como eu que ficou no parapeito da janela de limpar o sinal redondo dos vasos quando a pintura é fresca por causa da água.

Se o senhor soubesse isto tudo era capaz de vez em quando me dizer adeus da rua, e eu gostava de se lhe poder pedir isso, porque o senhor não imagina, eu talvez não vivesse mais, que pouco é o que tenho de viver, mas eu ia mais feliz lá para onde se vai se soubesse que o senhor me dava os bons dias por acaso.

A Margarida costureira diz que lhe falou uma vez, que lhe falou torto porque o senhor se meteu com ela na rua aqui ao lado, e essa vez é que eu senti inveja a valer, eu confesso porque não lhe quero mentir, senti inveja porque meter-se alguém connosco é a gente ser mulher, e eu não mulher nem homem, porque ninguém acha que eu sou nada a não ser uma espécie de gente que está para aqui a encher o vão da janela e a aborrecer tudo que me vê, valha-me Deus.

O António (é o mesmo nome que o seu, mas que diferença!) o António da oficina de automóveis disse uma vez a meu pai que toda a gente deve produzir qualquer coisa, que sem isso não há direito a viver, que quem não trabalha não come e não há direito a haver quem não trabalhe. E eu pensei que faço eu no mundo, que não faço nada senão estar à janela com toda a gente a mexer-se de um lado para o outro, sem ser paralítica, e tendo maneira de encontrar as pessoas de quem gosta, e depois poderia produzir à vontade o que fosse preciso porque tinha gosto para isso.

Adeus senhor António, eu não tenho senão dias de vida e escrevo esta carta só para a guardar no peito como se fosse uma carta que o senhor me escrevesse em vez de eu a escrever a si.

Eu desejo que o senhor tenha todas as felicidades que possa desejar e que nunca saiba de mim para não rir porque eu sei que não posso esperar mais.

Eu amo o senhor com toda a minha alma e toda a minha vida.

Aí tem e estou a chorar.

Maria José


(Fernando Pessoa)

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

medos e riscos

Escolher um caminho significava abandonar outros.
Tinha uma vida inteira para viver e pensava sempre que talvez se arrependesse, no futuro, das coisas que queria fazer agora.
"Tenho medo de me comprometer", pensou consigo mesma. Queria percorrer todos os caminhos possíveis e ia acabar por não percorrer nenhum.
Nem mesmo na coisa mais importante da sua vida, o amor, tinha conseguido ir até ao fim; depois da primeira decepção, nunca mais se entregara por completo. Temia o sofrimento, a perda, a inevitável separação. Claro, estas coisas estavam sempre presentes na estrada do amor - e a única maneira de as evitar era renunciar a percorrer a estrada. Para não sofrer, era preciso também não amar.
Como se, para não ver as coisas más da vida, acabasse por precisar de furar os olhos.
"É muito complicado, viver."
Era preciso correr riscos, seguir certos caminhos e abandonar outros. Lembrou-se de Wicca a falar das pessoas que seguem os caminhos apenas para provar que não servem para elas. Mas isso não era o pior. O pior era escolher e ficar o resto da vida a pensar se escolhera bem. Nenhuma pessoa era capaz de escolher sem medo.
No entanto, esta era a lei da vida. Esta era a Noite Escura e ninguém podia fugir da Noite Escura, mesmo que nunca tomasse uma decisão, mesmo que não tivesse coragem para mudar nada; porque isso em si já era uma decisão, uma mudança. E sem os tesouros escondidos na Noite Escura.
Lorens podia ter razão. No final, iriam rir dos medos que tiveram no início.

Paulo Coelho - "Brida"

(àquele que escolheu um caminho, só para provar que não lhe servia,
àquele que por ter medo de sofrer, não se entregou,
àquela a quem o medo paralisou, por muito tempo,
- todos capazes do melhor e do pior, companheiros desta vida)

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

educar

foto: carla vasconcelos

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à Marianita, à Go, à Sofia, à Inês, à Teresinha, à Ana, à Clara, ao João, ao Gonçalo, à Madeleine e a todos os grandes pequenos da minha vida

domingo, 16 de novembro de 2008

parabéns, filha

foto: j.h.costa

parabéns, mestre



Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?

j. saramago

cresta



Pelos caminhos feitos de água que cruzamos

Pelas fontes de onde juntos bebemos

Pelas marés de suor que navegamos

Pelas ondas de água e vento que vencemos

Pelo porto de abrigo dos teus braços

Pela tua boca praia do meu desejo

Pela certeza do teu colo nos meus passos

Pelo brilho dos meus olhos no teu beijo

Pelo corpo teu e meu navio

Pelo convés das camas onde amámos

Pelo querer suspenso por um fio

Pela foz em que ambos desaguamos

Pelo riso das histórias partilhadas

Pelo sono que o cansaço não venceu

Pelas montanhas e aves avistadas

Pelas saudades que o regresso adormeceu

Pelo amor embandeirado em arco

Pelo cheiro de sexo e maresia

Pelo teu peito proa do meu barco

Pela escotilha da nossa poesia


simone

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

poesia visual

foto:Carla Vasconcelos

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à Carla, que sabe ver a pureza das coisas

à Cristina, à Purnamasi e à Go, que a vão encontrar, na Índia

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

o que diz molero




fotos:fritz cooper


Apenas água.



Água, mãe da pureza.



(O sangue que te dou é água rubra)



Água de tudo.



Mas água viva.



E antes que o silêncio da água nos descubra.



Água das fontes para os teus ouvidos.



Água da minha mão na tua mão.



Água para os veleiros adormecidos nos telhados de cada solidão.



Apenas água.



E por falar em água



(água de tudo, límpida e corrente),



só eu sei como a água dos teus sonhos canta no coração de toda a gente.




Dinis Machado

antídotos do amor

"Pela mulher", escreve Kierkegaard, em In Vino Veritas,"a idealidade entra na vida, e sem ela que seria do homem? Mais de um homem se fez génio graças a uma jovem... mas nenhum se tornou génio graças a uma jovem de quem tivesse obtido a mão... É numa relação negativa que a mulher torna o homem produtivo na idealidade... Relações negativas com a mulher podem tornar-se infinitos... relações positivas com a mulher tornam o homem finito nas mais amplas proporções."
Isso significa que a mulher é necessária na medida em que permanece uma ideia em que o homem projecta a sua própria transcedência; mas que é nefasta enquanto realidade ojectiva, existindo por si e limitada a si. É recusando casar-se com a noiva que Kierkegaard pensa ter estabelecido a única relação válida com a mulher. (...)
O homem conseguiu escravizar a mulher, mas desse modo despojou-a do que lhe tornava a posse desejável. Integrada na família e na sociedade, a magia da mulher dissipa-se em vez de se transfigurar; reduzida à condição de serva, ela não é mais a presa indomada em que se encarnam todos os tesouros da Natureza.
Desde o aparecimento do amor cortês , é lugar-comum dizer que o casamento mata o amor. Demasiado desprezada ou demasiado respeitada, por demais quotidiana, a esposa já não é um objecto erótico. Os ritos do casamento destinam-se primitivamente a defender o homem contra a mulher, ela torna-se sua propriedade; mas tudo o que possuimos nos possui; o casamento é também uma servidão para o homem; é então que ele se vê preso na armadilha da Natureza. Por ter desejado uma jovem viçosa, o homem deve sustentar toda a vida uma gorda matrona, uma velha encarquilhada; a jóioa delicada destinada a embelezer-lhe a existência torna-se um fardo odioso(...)
Porém, mesmo que a mulher seja jovem, há no casamento uma mistificação, pois, pretendendo socializar o erotismo, só consegue aniquilá-lo. É que o erotismo implica uma reivindicação do instante contra o tempo, do indivíduo contra a colectividade; ele afirma a separação contra a comunicação; é rebelde a todo o regulamento; contém um princípio hostil à sociedade.(...)
O adultério só pode desaparecer com o próprio casamento. Porque o fim do casamento é, em suma, imunizar o homem contra a sua mulher: mas as outras mulheres conservam, a seus olhos, uma vertiginosa atracção; é para elas que ele se volta.

Simone de Beauvoir - "o segundo sexo"

(vale para os homens - e para as mulheres?
vale para os casamentos - e para os outros formatos a dois?)

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

não existe amor sem fidelidade

vinicius de moraes

chegada 19.10.1913

partida 09.07.1980

para viver um grande amor

Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... — não tem nenhum valor.

Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.

Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.

Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.

É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...

Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?

Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.

É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor.

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor.


(parabéns poeta, onde estiveres;

e obrigada pelas palavras cantadas que te nasceram na alma e quiseste mostrar aos outros)

assunto sério

a crise financeira internacional finalmente bem explicada ao comum dos mortais;
pasmem ou divirtam-se, o resultado é o mesmo

http://www.invertired.com/quimu/videos/25/34

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

besame mucho



ai, mulher, que lindo, não tivesses tu nascido em agosto, a 27 ;-)

teresa de ávila


Nada te turbe

Nada te espante

Dios no muda

Todo se pasa

La paciencia

Todo lo alcanza

Quien a Dios tiene

Nada le falta

Solo Dios basta

(a teresa de jesus, cuja vida se celebra neste dia, por ter sabido ouvir as vozes e os sons que o silêncio transporta)

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

gerês







caminhos calcados por muitos
a que o silêncio regressa
como se nunca tivesse sido cortado

terra de cores
carícia de ventos
planados por águias

música de águas
tojo, giesta, tomilho e lírio

feto, urze,
pedras que falam
árvores que respiram

pinheiro
cipreste
vidoeiro
carvalho
salgueiro
azevinho

eco de gritos com asas
soltas, voadas, contentes
por não ver paredes
entre elas e o nada

simone

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

o mundo ao contrário



onde vais?
perguntas tu ainda meio a dormir
nao sei bem
respondo eu sem saber o que vestir

porque sais?
ainda é cedo e tu não sabes mentir
nem eu sei
só sei que fica tarde e tenho de ir

bem depois
de estar na rua instalou-se uma dor
por nós dois
talvez sair tivesse sido melhor

se assim foi
porque me sinto eu a morrer de amor?

tenho a noite a atravessar
doi-me não ir
mas não me deixas voltar

se gosto de ti
se gostas de mim
se isto nao chega tens o mundo ao contrário

se gosto de ti
se gostas de mim
se isto nao chega tens o mundo ao contrário
o mundo ao contrário

sábado, 4 de outubro de 2008

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

reciprocidade e autenticidade ou reflexos complacentes

Um homem é julgado pelos semelhantes devido ao que faz, na sua objectividade e segundo as medidas gerais. Mas algumas das suas qualidades, e entre outras as qualidades vitais, só podem interessa à mulher; ele é viril, agradável, sedutor, terno, cruel, unicamente em função dela: se é a essas mais secretas virtudes que dá valor, ele tem necessidade absoluta dela; por ela conhecerá o milagre de apresentar-se omo Outro, Outro que é também o seu eu mais profundo.
(...)Em muitos homens essa exigência degrada-se; em lugar de uma revelação exacta, eles buscam no fundo de dois olhos vivos uma imagem aureolada de admiração e gratidão, divinizada. Se a mulher foi, muitas vezes, comparada à água , é, entre outros motivos, porque é o espelho em que o Narciso macho se contempla; debruça-se sobre ela de boa ou má-fé. Mas o que, em todo o caso, ele lhe pede é que seja fora dele tudo o que não pode apreender em si, pois a inferioridade do existente não passa de nada e, para se atingir, ele precisa projectar-se num objecto.
A mulher é para ele a suprema recompensa, porque é sob uma forma exterior que pode possuir, na sua carne, a sua própria apoteose. E é esse "monstro incomparável", isto é, a si mesmo, que ele possui quando aperta nos braços o ser que lhe resume o Mundo e a quem impôs os seus valores e leis. Então, unindo-se a esse Outro que fez seu, espera atingir-se a si próprio.
Tesouro, presa, jogo e risco, musa, guia, juiz, mediadora, espelho, a mulher é o Outro em que o sujeito se supera sem ser limitado, que a ele se opõe sem o negar. Ela é o Outro que se deixa anexar sem deixar de ser o outro. E, desse modo, ela é tão necessária à alegria do homem e ao seu triunfo, que se pode dizer que, se ela não existisse, os homens a teriam inventado.

(Simone de Beauvoir - o segundo sexo)

Bhagavad-gita


“ Tudo o que fizeres, tudo o que comeres, tudo o que ofereceres ou deres e quaisquer austeridades que executares – faz isto, ó filho de Kunti, como uma oferenda a Mim.”

“Desse modo, ficarás livre do cativeiro do trabalho e dos seus resultados auspiciosos e inauspiciosos. Com a mente fixa em Mim neste princípio de renúncia, libertar-te-ás e virás a Mim.”

Estes dois versos estão inseridos no Cap. 9º do BG intitulado “O conhecimento mais confidencial”

O BG é um clássico indiano sobre Teologia, Filosofia e Yoga constituído por 700 versos e reproduz cerca de 45 minutos de conversa entre Krishna e Arjuna, antes dum momento histórico decisivo, a Batalha de Kuruksetra, há cerca de 5000 anos, na Índia, num local que ainda hoje é visitado.

Ao longo da conversa, Krishna vai falando de diferentes assuntos:

-a eternidade da Alma, as limitações do corpo e dos aspectos com ele relacionados, a reencarnação e as características das pessoas santas (Cap. 2º)

-a lei do Karma, o conhecimento transcendental acerca do Eu, do Supremo e da relação entre ambos (Cap. 3º)

-a importância de ter um mestre espiritual (Cap. 4º)

-a renúncia aos frutos do trabalho e o resultado de tal renúncia (Cap. 5º)

- o método mecânico de Yoga, Astanga Yoga (Cap. 6º)

- as diferentes energias do Senhor e ser Ele a causa e origem de tudo quanto existe (Cap. 7º)

-a importância de recordar Deus ao longo da vida e principalmente na hora da morte (Cap. 8º)

O Cap. 9º trata de Bhakti Yoga, a nossa relação amorosa com a Suprema Personalidade de Deus e é intitulado “O conhecimento mais confidencial” chegando Krishna a chamar-lhe o Rei do conhecimento, no verso 1.

Porque é que Este conhecimento é o mais confidencial em relação a tudo quanto foi dito por Krishna ao longo dos 8 primeiros capítulos do BG?

- o conhecimento sobre a matéria e sobre a relação entre os seres vivos enquanto corpos é vulgar e acessível;

-a existência da alma e a diferença dela com o corpo já é conhecimento espiritual, mais refinado e superior;

-o conhecimento de como ultrapassar a materialidade e transcender a influencia dos 3 modos da natureza material é mais superior e mais difícil;

- por fim o conhecimento mais confidencial, mais secreto, o Rei do conhecimento é sobre BY pois trata-se de restabelecer a nossa eterna relação amorosa com o Supremo, com Deus, Krishna.

Em versos anteriores no Cap. 9º, Sri Krishna fala do devoto puro (v 14,22 e 26) aquela pessoa extremamente avançada que é consciente de Deus 24 h por dia ou seja, que coloca Krishna no centro do seu coração, mente, actividades e pensamentos. A pessoa 100% rendida a Deus.

Ora essa posição é muito rara e difícil de alcançar, dai que o próprio Senhor diga que temos uma alternativa se e enquanto não nos conseguirmos render – é desta alternativa que fala o verso 27 e as consequências são garantidas no verso 28.

“Tudo o que fizeres, faz como uma oferenda a Mim e assim libertas-te da materialidade e vens a Mim”

Estes versos falam de pessoas como nós, ou seja pessoas apegadas aos seus trabalhos e enredadas em actividades materiais : trabalhar, educar os filhos, ir às compras, relacionar-se com a família e amigos, viajar, divertir-se, fazer desporto, preocupar-se com o presente e o futuro, ir ao médico e as repartições públicas, ir passear o cão, ter contas para pagar, ter dividas, tentar ser feliz, etc.

Para nós a proposta de Deus, Krishna é que tudo o que já estamos a fazer, continuemos do mesmo modo, mas que tudo passe a ser feito como uma oferenda a Ele.

Isto significa uma nova atitude interna, uma nova consciência, um novo estado de alma, uma nova mentalidade: externamente continuamos a parecer quem éramos mas internamente adoptamos uma postura espiritualista.

Tudo o que fazemos, fazemos como uma oferenda a Deus:

- cozinhamos os alimentos que Krishna diz aceitar e comemos depois de lhos oferecer;

-educamos os nossos filhos para que sejam crentes em Deus e espiritualistas na sua conduta;

-tentamos melhorar as condições que nos rodeiam pensando no Planeta como criação divina;

-vemos o nosso cônjuge, familiares, amigos e todos os seres vivos como almas espirituais;

-o nosso trabalho como fonte de rendimentos que podemos usar para investirmos no nosso avanço espiritual e o local onde podemos aprimorar as nossas qualidades enquanto seres humanos espirituais;

-vamos às compras e temos uma atitude de ecologia espiritual,

- somos vegetarianos por misericórdia para como os filhos de Deus,

-aceitamos os outros religiosos como nossos irmãos espirituais,

- arrumamos a nossa casa para que seja e porque é o nosso Templo,

- vemos as nossas dificuldades como resultado do Karma de vidas passadas e oportunidade de avançarmos espiritualmente,

- damos prioridade às actividades e às pessoas que incrementam a nossa vida espiritual,

-afastamo-nos de actividades e pessoas que ponham em risco a nossa vida espiritual,

- organizamos o nosso dia de modo a termos sempre ocasião de fazermos uma oração a Deus e de meditarmos nas suas qualidades e actividades de modo a “Lembrarmos Sempre Krishna e nunca nos esquecermos Dele.”

Agindo assim, agimos como verdadeiros renunciantes, isto é, sem apego aos resultados das nossas actividades pois todos os frutos são oferecidos a Krishna, o que nos liberta das reaçoes auspiciosas e inauspiciosas do trabalho.

Esta liberdade face a qualquer tipo de reaçoes, positivas ou negativas, das nossas actividades faz com que não acumulemos Karma e que nos possamos libertar do plano da materialidade de tal modo que na continuação de tais acções sem resultados acabamos por nos libertar completamente e no futuro podemos ingressar nos planetas espirituais e reviver a nossa eterna relação pessoal com Krishna de modo presencial e directo.

Krishna é tão misericordioso que dá mesmo chance a pessoas como nós, ainda muito materialistas, propondo um meio muito simples e prático - que tudo seja feito como uma oferenda a ELE – e garantindo o melhor resultado: a reentrada nos planetas espirituais e o reencontro com Radha e Krishna.

È uma excelente troca!


(obrigada purnamasi)

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

o poço

Cais, às vezes, afundas
em teu fosso de silêncio,
em teu abismo de orgulhosa cólera,
e mal consegues
voltar,
trazendo restos
do que achaste
pelas profunduras da tua existência.

Meu amor, o que encontras
em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?
O que vês, de olhos cegos,
rancorosa e ferida?
Não acharás, amor,
no poço em que cais
o que na altura guardo para ti:
um ramo de jasmins todo orvalhado,
um beijo mais profundo que esse abismo.

Não me temas, não caias
de novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
e deixa que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me
sem que tu a dirijas,
porque foi carregada com um instante duro
e esse instante será desarmado em meu peito.

Radiosa me sorris
e minha boca fere.
Não sou um pastor doce
como em contos de fadas,
mas um lenhador que comparte contigo
terras, vento e espinhos das montanhas.

Dá-me amor, me sorri
e me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil,
não me firas a mim porque te feres.

Pablo Neruda

(não és um pastor doce mas um lenhador, que corta as árvores e fere a terra, que manuseia machados e usa o fogo;
lenhador do fim e da devastação, da aridez e do vento frio;
lenhador da ausência e do que já foi, da mudança e do renascimento;
lenhador machado, homem instrumento;
como posso compartir contigo terras, vento e espinhos das montanhas?)

ser, sentir, viver






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quarta-feira, 1 de outubro de 2008

yo-yo ma



dia mundial da música

homenagem às minhas filhas, ao cello, à fantasia, ao sonho e à vida que ele comanda

terça-feira, 30 de setembro de 2008

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

salmo 23 comentado

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porque será que o salmo 23 me veio ter às mãos duas vezes em tão poucos dias?
logo quando estava a sentir falta de tantas das coisas que o salmo indica?
sinto um princípio de explicação e ganho um sorriso interior
que vos faça tão bem como fez a mim