domingo, 28 de fevereiro de 2010

carl orff




Ó Fortuna




Ó Fortuna

variável

como a lua

cresces sempre

ou diminuis,

detestável vita!

joje maltratas

amanhã lisonjeias

brincas com os nossos sentidos

a miséria

o poder

fundem como gelo em ti.



Destino cruel

e vão

roda que giras

a tua natureza é preversa

a tua felicidade vã

sempre a dissipar-se

pela sombra

e em segredo

aproximas-te de mim

apresento o meu dorso nu

ao jogo da tua

preversidade.



Felicidade

e virtude

são-me agora contrárias;

afecções

e derrotas

estão sempre presentes.

Nesta hora

sem demora

pulsai as cordas

pois que o bravo, derrubado

pelo destino

chorai todos comigo.



Choro as feridas causadas pela fortuna

com olhos lacrimosos

pois, rebelde,

retoma os seus dons.

Na verdade, está escrito

que a cabeça coberta de cabelos

a maior parte das vezes

revela-se, quando a ocasião se apresenta calva.



No trono da Fortuna

sentei-me com orgulho

coroado com as flores variadas

da prosperidade.

Floresci então

feliz e abençoado

eis-me agora caído do cume

e privado de glória.



Gira roda da fortuna

eu desço e pereço

outro é levado para cima;

no cimo de tudo

senta-se o rei, no vértice:

ele que se guarde de cair!

E sob o eixo da roda lê-se:

Rainha Hécuba.



em homenagem ao ano de 1980

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

o brincador

«Quando for grande, não quero ser médico, engenheiro ou professor.
Não quero trabalhar de manhã à noite, seja no que for.
Quero brincar de manhã à noite, seja com o que for.
Quando for grande, quero ser um brincador.
Ficam, portanto, a saber: não vou para a escola aprender a ser um médico, um engenheiro ou um professor.
Tenho mais em que pensar e muito mais que fazer.
Tenho tanto que brincar, como brinca um brincador, muito mais o que sonhar, como sonha um sonhador, e também que imaginar, como imagina um imaginador…
A mãe diz que não pode ser, que não é profissão de gente crescida. E depois acrescenta, a suspirar: “é assim a vida”. Custa tanto a acreditar. Pessoas que são capazes, que um dia também foram raparigas e rapazes, mas já não podem brincar.
A vida é assim? Não para mim. Quando for grande, quero ser brincador. Brincar e crescer, crescer e brincar, até a morte vir bater à minha porta. Depois também, sardanisca verde que continua a rabiar mesmo depois de morta. Na minha sepultura, vão escrever: “Aqui jaz um brincador. Era um homem simples e dedicado, muito dado, que se levantava cedo todas as manhãs para ir brincar com as palavras.»

Álvaro Magalhães

estes são dias de estar.
estar nas salas.
estar com amigos.
estar com sono.
estar apenas.
dias de ouvir, de ler, de dormir.
de sonhar, de saber, de sentir.
dias fartos de lucidez comida com amargura.
dias de perceber que a alma ainda é menina.
dias de apetecer e fazer só porque sim.
dias de acreditar que nada mata a ternura.
dias de ser inteiro, como a criança a brincar.
dias de ser a sério, e ter saudades do mar.

magari

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

águas de março



A MINHA ESCOLHA

é o fim do caminho
é um pouco sozinho
é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol

É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira

É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a chuva chovendo, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira

É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão

É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto o desgosto, é um pouco sozinho
É um pingo pingando, é uma conta, é um conto

É um peixe, é um gesto,
É a luz da manhã, é o corpo na cama
é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, uma febre sertã

São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração

A ESCOLHA DELES

pau, pedra, fim, caminho
resto, toco, pouco, sozinho
caco, vidro, vida, sol, noite, morte, laço, anzol

São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração.

pois, é tão linda!