segunda-feira, 30 de junho de 2008

desencontros

Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.

Carlos Drummond de Andrade

(tantas ilações para tirar daqui!)

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Woody Allen

(escultura de bruno torfs)



"Na minha próxima vida quero vivê-la de trás para a frente.


Começar morto para despachar logo esse assunto. Depois acordar num lar de idosos e sentir-me melhor a cada dia que passa. Ser expulso porque estou demasiado saudável, ir receber a pensão e começar a trabalhar, receber logo um relógio de ouro no primeiro dia.


Trabalhar 40 anos até ser novo o suficiente para gozar a reforma. Divertir-me, embebedar-me e ser de uma forma geral promíscuo, e depois estar pronto para o liceu.


Em seguida a primária, fica-se criança e brinca-se. Não temos responsabilidades e ficamos um bébé até nascermos.


Por fim, passamos 9 meses a flutuar num spa de luxo com aquecimento central, serviço de quartos à descrição e um quarto maior de dia para dia e depois Voila! Acaba com um orgasmo!


I rest my case."





(se é mesmo do putativo autor, não sei mas, pela minha parte, na impossibilidade de inverter a ordem natural das coisas, faço o que posso pela parte de ficar cada vez mais criança)


why did the chicken cross the road?




BARACK OBAMA: The chicken crossed the road because it was time for a CHANGE! The chicken wanted CHANGE!


JOHN MC CAIN: My friends, that chicken crossed the road because he recognized the need to engage in cooperation and dialogue with all the chickens on the other side of the road.


HILLARY CLINTON: When I was First Lady, I personally helped that little chicken to cross the road. This experience makes me uniquely qualified to ensure -- right from Day One! -- that every chicken in this country gets the chance it deserves to cross the road. But then, this really isn't about me.......


DR. PHIL: The problem we have here is that this chicken won't realize that he must first deal with the problem on 'THIS' side of the road before it goes after the problem on the 'OTHER SIDE' of the road. What we need to do is help him realize how stupid he's acting by not taking on his 'CURRENT' problems before adding 'NEW' problems.


OPRAH: Well, I understand that the chicken is having problems, which is why he wants to cross this road so bad. So instead of having the chicken learn from his mistakes and take falls, which is a part of life, I'm going to give this chicken a car so that he can just drive across the road and not live his life like the rest of the chickens.


GEORGE W. BUSH: We don't really care why the chicken crossed the road. We just want to know if the chicken is on our side of the road, or not. The chicken is either against us, or for us. There is no middle ground here.


COLIN POWELL: Now to the left of the screen, you can clearly see the satellite image of the chicken crossing the road...


PAT BUCHANAN: To steal the job of a decent, hardworking American.


MARTHA STEWART: No one called me to warn me which way that chicken was going. I had a standing order at the Farmer's Market to sell my eggs when the price dropped to a certain level. No little bird gave me any insider information.


ERNEST HEMINGWAY: To die in the rain. Alone.


ARISTOTLE: It is the nature of chickens to cross the road.


JOHN LENNON: Imagine all the chickens in the world crossing roads together, in peace.


BILL GATES: I have just released eChicken2007, which will not only cross roads, but will lay eggs, file your important documents, and balance your check book. Internet Explorer is an integral part of the Chicken. This new platform is much more stable and will never cra...#@&&^(C% ........ reboot.


ALBERT EINSTEIN: Did the chicken really cross the road, or did the road move beneath the chicken?


BILL CLINTON: I did not cross the road with THAT chicken. What is your definition of chicken?


AL GORE: I invented the chicken!


DICK CHENEY: Where's my gun?

quarta-feira, 25 de junho de 2008

terça-feira, 24 de junho de 2008

tempo para mim




'Eu não sirvo de exemplo para nada, mas, se você quer saber se isso é possível, me ofereço como


piloto de testes.


Sou a Miss Imperfeita, muito prazer.


Uma imperfeita que faz tudo o que precisa fazer, como boa profissional, mãe e mulher que também sou:


trabalho todos os dias, ganho minha grana, vou ao supermercado três vezes por semana, decido o


cardápio das refeições, levo os filhos no colégio e busco, almoço com eles, estudo com eles,telefono


para minha mãe todas as noites, procuro minhas amigas, namoro, viajo, vou ao cinema, pago


minhas contas, respondo a toneladas de e-mails, faço revisões no dentista, mamografia, caminho


meia hora diariamente, compro flores para casa, providencio os consertos domésticos, participo


de eventos e reuniões ligados à minha profissão e ainda faço escova toda semana - e as unhas!


E, entre uma coisa e outra, leio livros.


Portanto, sou ocupada, mas não uma workaholic.


Por mais disciplinada e responsável que eu seja, aprendi duas coisinhas que operam milagres.


Primeiro: a dizer NÃO.


Segundo: a não sentir um pingo de culpa por dizer NÃO.


Culpa por nada, aliás.


Existe a Coca Zero, o Fome Zero, o Recruta Zero.


Pois inclua na sua lista a Culpa Zero.


Quando você nasceu, nenhum profeta adentrou a sala da maternidade e lhe apontou o dedo


dizendo que a partir daquele momento você seria modelo para os outros.


Seu pai e sua mãe, acredite, não tiveram essa expectativa:


tudo o que desejaram é que você não chorasse muito durante as madrugadas e mamasse


direitinho.


Você não é Nossa Senhora.


Você é, humildemente, uma mulher.


E, se não aprender a delegar, a priorizar e a se divertir, bye-bye vida interessante.


Porque vida interessante não é ter a agenda lotada, não é ser sempre politicamente correta, não


é topar qualquer projeto por dinheiro, não é atender a todos e criar para si a falsa impressão de


ser indispensável.


É ter tempo.


Tempo para fazer nada.


Tempo para fazer tudo.


Tempo para dançar sozinha na sala.


Tempo para bisbilhotar uma loja de discos.


Tempo para sumir dois dias com seu amor. Três dias. Cinco dias!


Tempo para uma massagem.


Tempo para ver a novela.


Tempo para receber aquela sua amiga que é consultora de produtos de beleza.


Tempo para fazer um trabalho voluntário.


Tempo para procurar um abajur novo para seu quarto.


Tempo para conhecer outras pessoas.


Voltar a estudar.


Para engravidar.


Tempo para escrever um livro que você nem sabe se um dia será editado.


Tempo, principalmente, para descobrir que você pode serperfeitamente organizada e


profissional sem deixar de existir.


Porque nossa existência não é contabilizada por um relógio de ponto ou pela quantidade de


memorandos virtuais que atolam nossa caixa postal.


Existir, a que será que se destina?


Destina-se a ter o tempo a favor, e não contra.


A mulher moderna anda muito antiga.


Acredita que, se não for super, se não for mega, se não for uma executiva ISO 9000, não será


bem avaliada.


Está tentando provar não-sei-o-quê para não-sei-quem.


Precisa respeitar o mosaico de si mesma, privilegiar cada pedacinho de si.


Se o trabalho é um pedação de sua vida, ótimo!


Nada é mais elegante, charmoso e inteligente do que ser independente.


Mulher que se sustenta fica muito mais sexy e muito mais livre para ir e vir.


Desde que lembre de separar alguns bons momentos da semana para usufruir essa


independência,


senão é escravidão, a mesma que nos mantinha trancafiadas em casa, espiando a vida pela janela.


Desacelerar tem um custo.


Talvez seja preciso esquecer a bolsa Prada, o hotel decorado pelo Philippe Starck e o batom da


M.A.C.


Mas, se você precisa vender a alma ao diabo para ter tudo isso, francamente, está precisando


rever seus valores.


E descobrir que uma bolsa de palha, uma pousadinha rústica à beira-mar e o rosto lavado (ok,


esqueça o rosto lavado) podem ser prazeres cinco estrelas e nos dar uma nova perspectiva sobre


o que é, afinal, uma vida interessante'.






Texto da Martha Medeiros publicado na Revista do O Globo



(tempo para subir montanhas, tempo para o blog, tempo para arrumar prateleiras, tempo para biodanzar, tempo para armar o circo, tempo para te amar)

segunda-feira, 23 de junho de 2008

abrigos

(escultura de bruno torfs)

abraços

que me baloiçam

e seguram



chão
colchão

maré

âncora

meu colo



entrada

luz

chegada

certeza

meu pão



meu sol

meu bichinho

meu embarque

minha ternura

repartida

histórias de noite e luz


ABRAÇOS


QUE ME BALOIÇAM

E SEGURAM

histórias de cais e marinheiros

CHÃO

COLCHÃO


MARÉ

ÂNCORA

COLO

histórias de castelos e pedras

ENTRADA

LUZ


CHEGADA


CERTEZA


PÃO

histórias de serra e mar


MEU SOL

MEU BICHINHO

MEU EMBARQUE


MINHA TERNURA


REPARTIDA

clandestinos como nós

clica na imagem

sexta-feira, 20 de junho de 2008

elegia à directiva do retorno

Não estamos preparados para nada:
certamente que não para viver
Dentro da vida vamos escolher
o erro certo ou a certeza errada

Que nos redime dessa magoada
agitação do amor em que prazer
nem sempre é o que fica de querer
ser o amador e ser a coisa amada?

Porque ninguém nos salva de não ser
também de ser já nada nos resgata
Não estamos preparados para o nada:
certamente que não para morrer

Gastão Cruz

Maria Bethania

Explode Coração - Gonzaguinha

Chega de tentar dissimular e disfarçar e esconder
O que não dá mais pra ocultar e eu não quero mais calar
Já que o brilho desse olhar foi traidor
E entregou o que você tentou conter
O que você não quis desabafar e me cortou

Chega de temer, chorar, sofrer, sorrir, se dar
E se perder e se achar e tudo aquilo que é viver
Eu quero mais é me abrir e que essa vida entre assim
Como se fosse o sol desvirginando a madrugada
Quero sentir a dor desta manhã

Nascendo, rompendo, rasgando, tomando meu corpo e então eu
Chorando, sofrendo, gostando, adorando, gritando
Feito louca, alucinada e criança
Sentindo o meu amor se derramando
Não dá mais pra segurar explode coração

quarta-feira, 18 de junho de 2008

swan lake

(e às artes...)

Baptista Bastos

O ranço Salazarista



Cada vez mais nos afastamos uns dos outros. Trespassamo-nos sem nos ver. Caminhamos nas ruas com a apática indiferença de sequer sabermos quem somos. Nem interessados estamos em o saber. Os dias deixaram de ser a aventura do imprevisto e a magia do improviso para se transformarem na amarga rotina do viver português e do existir em Portugal.
Deixámos cair a cultura da revolta. Não falamos de nós. Enredamo-nos na futilidade das coisas inúteis, como se fossem o atordoamento ou o sedativo das nossas dores. E as nossas dores não são, apenas, d'alma: são, também, dores físicas.
Lemos os jornais e não acreditamos. Lemos, é como quem diz – os que lêem. As televisões são a vergonha do pensamento. Os comentadores tocam pela mesma pauta e sopram a mesma música. Há longos anos que a análise dos nossos problemas está entregue a pessoas que não suscitam inquietação em quem os ouve. Uma anestesia geral parece ter sido adicionada ao corpo da nação.
Um amigo meu, professor em Lille, envia-me um email. Há muitos anos, deixou Portugal. Esteve, agora, por aqui. Lança-me um apelo veemente e dorido: "Que se passa com a nossa terra? Parece um país morto. A garra portuguesa foi aparada ou cortada por uma clique, espalhada por todos os sectores da vida nacional e que de tudo tomou conta. Indignem-se em massa, como dizia o Soares."
Nunca é de mais repetir o drama que se abateu sobre a maioria. Enquanto dois milhões de miúdos vivem na miséria, os bancos obtiveram lucros de 7,9 milhões por dia. Há qualquer coisa de podre e de inquietantemente injusto nestes números. Dir-se-á que não há relação de causa e efeito. Há, claro que há. Qualquer economista sério encontrará associações entre os abismos da pobreza e da fome e os cumes ostensivos das riquezas adquiridas muitas vezes não se sabe como.
Prepara-se (preparam os "socialistas modernos" de Sócrates) a privatização de quase tudo, especialmente da saúde, o mais rendível. E o primeiro-ministro, naquela despudorada "entrevista" à SIC, declama que está a defender o SNS! O desemprego atinge picos elevadíssimos. Sócrates diz exactamente o contrário. A mentira constitui, hoje, um desporto particularmente requintado. É impossível ver qualquer membro deste Governo sem ser assaltado por uma repugnância visceral. O carácter desta gente é inexistente. Nenhum deles vai aos jornais, às Televisões e às Rádios falar verdade, contar a evidência. E a evidência é a fome, a miséria, a tristeza do nosso amargo viver; os nossos velhos a morrer nos jardins, com reformas de não chegam para comer quanto mais para adquirir remédios; os nossos jovens a tentar a sorte no estrangeiro, ou a desafiar a morte nas drogas; a iliteracia, a ignorância, o túnel negro sem fim.
Diz-se que, nas próximas eleições, este agrupamento voltará a ganhar. Diz-se que a alternativa é pior. Diz-se que estamos desgraçados. Diz um general que recebe pressões constantes para encabeçar um movimento de indignação. Diz-se que, um dia destes, rebenta uma explosão social com imprevisíveis consequências. Diz a SEDES, com alguns anos de atraso, como, aliás, é seu timbre, que a crise é muito má. Diz-se, diz-se.
Bem gostaríamos de saber o que dizem Mário Soares, António Arnaut, Manuel Alegre, Ana Gomes, Ferro Rodrigues (não sei quem mais, porque socialistas, socialistas, poucos há) acerca deste descalabro. Não é só dizer: é fazer, é agir. O facto, meramente circunstancial, de este PS ter conquistado a maioria absoluta não legitima as atrocidades governamentais, que sobem em escalada. O paliativo da substituição do sinistro Correia de Campos pela dr.ª Ana Jorge não passa de isso mesmo: paliativo. Apenas para toldar os olhos de quem ainda deseja ver, porque há outros que não vêem porque não querem.
A aceitação acrítica das decisões governamentais está coligada com a cumplicidade. Quando Vieira da Silva expõe um ar compungido, perante os relatórios internacionais sobre a miséria portuguesa, alguém lhe devia dizer para ter vergonha. Não se resolve este magno problema com a distribuição de umas migalhas, que possuem sempre o aspecto da caridadezinha fascista. Um socialista a sério jamais procedia daquele modo. E há soluções adequadas. O acréscimo do desemprego está na base deste atroz retrocesso.
Vivemos num país que já nada tem a ver com o País de Abril. Aliás, penso, seriamente, que pouco tem a ver com a democracia. O quero, posso e mando de José Sócrates, o estilo hirto e autoritário, moldado em Cavaco, significa que nem tudo foi extirpado do que de pior existe nos políticos portugueses. Há um ranço salazarista nesta gente. E, com a passagem dos dias, cada vez mais se me acentua a ideia de que a saída só reside na cultura da revolta.


(no centésimo post, uma homenagem ao livre pensamento)

sexta-feira, 13 de junho de 2008

passagem das horas

Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.

A entrada de Singapura, manhã subindo, cor verde,
O coral das Maldivas em passagem cálida,
Macau à uma hora da noite...
Acordo de repente
Yat-iô--ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô ... Ghi-...
E aquilo soa-me do fundo de uma outra realidade
A estatura norte-africana quase de Zanzibar ao sol
Dar-es-Salaam (a saída é difícil)...
Majunga, Nossi-Bé, verduras de Madagascar...
Tempestades em torno ao Guardaful...
E o Cabo da Boa Esperança nítido ao sol da madrugada...
E a Cidade do Cabo com a Montanha da Mesa ao fundo...

Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei...
Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos...
Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti,
Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir
E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz.

A certos momentos do dia recordo tudo isto e apavoro-me,
Penso em que é que me ficará desta vida aos bocados, deste auge,
Desta estrada às curvas, deste automóvel à beira da estrada, deste aviso,
Desta turbulência tranqüila de sensações desencontradas,
Desta transfusão, desta insubsistência, desta convergência iriada,
Deste desassossego no fundo de todos os cálices,
Desta angústia no fundo de todos os prazeres,
Desta saciedade antecipada na asa de todas as chávenas,
Deste jogo de cartas fastiento entre o Cabo da Boa Esperança e as Canárias.

Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei
Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,
Consangüinidade com o mistério das coisas, choque
Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,
Ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz.

Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.

Cruzo os braços sobre a mesa, ponho a cabeça sobre os braços,
É preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas...
Por mais que me esforce por ter uma grande pena de mim, não choro,
Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca...
Que há de ser de mim? Que há de ser de mim?

Correram o bobo a chicote do palácio, sem razão,
Fizeram o mendigo levantar-se do degrau onde caíra.
Bateram na criança abandonada e tiraram-lhe o pão das mãos.
Oh mágoa imensa do mundo, o que falta é agir...
Tão decadente, tão decadente, tão decadente...
Só estou bem quando ouço música, e nem então.
Jardins do século dezoito antes de 89,
Onde estais vós, que eu quero chorar de qualquer maneira?

Como um bálsamo que não consola senão pela idéia de que é um bálsamo,
A tarde de hoje e de todos os dias pouco a pouco, monótona, cai.
Acenderam as luzes, cai a noite, a vida substitui-se.
Seja de que maneira for, é preciso continuar a viver.
Arde-me a alma como se fosse uma mão, fisicamente.
Estou no caminho de todos e esbarram comigo.
Minha quinta na província,
Haver menos que um comboio, uma diligência e a decisão de partir entre mim e ti.
Assim fico, fico... Eu sou o que sempre quer partir,
E fica sempre, fica sempre, fica sempre,
Até à morte fica, mesmo que parta, fica, fica, fica...

Torna-me humano, ó noite, torna-me fraterno e solícito.
Só humanitariamente é que se pode viver.
Só amando os homens, as ações, a banalidade dos trabalhos,
Só assim - ai de mim! -, só assim se pode viver.
Só assim, o noite, e eu nunca poderei ser assim!

Vi todas as coisas, e maravilhei-me de tudo,
Mas tudo ou sobrou ou foi pouco - não sei qual - e eu sofri.
Vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos,
E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse.
Amei e odiei como toda gente,
Mas para toda a gente isso foi normal e instintivo,
E para mim foi sempre a exceção, o choque, a válvula, o espasmo.

Vem, ó noite, e apaga-me, vem e afoga-me em ti.
Ó carinhosa do Além, senhora do luto infinito,
Mágoa externa na Terra, choro silencioso do Mundo.
Mãe suave e antiga das emoções sem gesto,
Irmã mais velha, virgem e triste, das idéias sem nexo,
Noiva esperando sempre os nossos propósitos incompletos,
A direção constantemente abandonada do nosso destino,
A nossa incerteza pagã sem alegria,
A nossa fraqueza cristã sem fé,
O nosso budismo inerte, sem amor pelas coisas nem êxtases,
A nossa febre, a nossa palidez, a nossa impaciência de fracos,
A nossa vida, o mãe, a nossa perdida vida...

Não sei sentir, não sei ser humano, conviver
De dentro da alma triste com os homens meus irmãos na terra.
Não sei ser útil mesmo sentindo, ser prático, ser quotidiano, nítido,
Ter um lugar na vida, ter um destino entre os homens,
Ter uma obra, uma força, uma vontade, uma horta,
Uma razão para descansar, uma necessidade de me distrair,
Uma cousa vinda diretamente da natureza para mim.
Por isso sê para mim materna, ó noite tranqüila...
Tu, que tiras o mundo ao mundo, tu que és a paz,
Tu que não existes, que és só a ausência da luz,
Tu que não és uma coisa, rim lugar, uma essência, uma vida,
Penélope da teia, amanhã desfeita, da tua escuridão,
Circe irreal dos febris, dos angustiados sem causa,
Vem para mim, ó noite, estende para mim as mãos,
E sê frescor e alívio, o noite, sobre a minha fronte... '
Tu, cuja vinda é tão suave que parece um afastamento,
Cujo fluxo e refluxo de treva, quando a lua bafeja,
Tem ondas de carinho morto, frio de mares de sonho,
Brisas de paisagens supostas para a nossa angústia excessiva...
Tu, palidamente, tu, flébil, tu, liquidamente,
Aroma de morte entre flores, hálito de febre sobre margens,
Tu, rainha, tu, castelã, tu, dona pálida, vem...

Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.

Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,
Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,
Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,
Seja uma flor ou uma idéia abstrata,
Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus.

E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo.
São-me simpáticos os homens superiores porque são superiores,
E são-me simpáticos os homens inferiores porque são superiores também,
Porque ser inferior é diferente de ser superior,
E por isso é uma superioridade a certos momentos de visão.
Simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de caráter,
E simpatizo com outros pela sua falta dessas qualidades,
E com outros ainda simpatizo por simpatizar com eles,
E há momentos absolutamente orgânicos em que esses são todos os homens.
Sim, como sou rei absoluto na minha simpatia,
Basta que ela exista para que tenha razão de ser.

Estreito ao meu peito arfante, num abraço comovido,
(No mesmo abraço comovido)
O homem que dá a camisa ao pobre que desconhece,
O soldado que morre pela pátria sem saber o que é pátria,
E o matricida, o fratricida, o incestuoso, o violador de crianças,
O ladrão de estradas, o salteador dos mares,
O gatuno de carteiras, a sombra que espera nas vielas
— Todos são a minha amante predileta pelo menos um momento na vida.

Beijo na boca todas as prostitutas,
Beijo sobre os olhos todos os souteneurs,
A minha passividade jaz aos pés de todos os assassinos
E a minha capa à espanhola esconde a retirada a todos os ladrões.
Tudo é a razão de ser da minha vida.
Cometi todos os crimes,
Vivi dentro de todos os crimes
(Eu próprio fui, não um nem o outro no vicio,
Mas o próprio vício-pessoa praticado entre eles,
E dessas são as horas mais arco-de-triunfo da minha vida).

Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-rne,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.

Os braços de todos os atletas apertaram-me subitamente feminino,
E eu só de pensar nisso desmaiei entre músculos supostos.
Foram dados na minha boca os beijos de todos os encontros,
Acenaram no meu coração os lenços de todas as despedidas,
Todos os chamamentos obscenos de gesto e olhares
Batem-me em cheio em todo o corpo com sede nos centros sexuais.

Fui todos os ascetas, todos os postos-de-parte, todos os como que esquecidos,
E todos os pederastas - absolutamente todos (não faltou nenhum).
Rendez-vous a vermelho e negro no fundo-inferno da minha alma!
(Freddie, eu chamava-te Baby, porque tu eras louro, branco e eu amava-te,
Quantas imperatrizes por reinar e princesas destronadas tu foste para mim!)
Mary, com quem eu lia Burns em dias tristes como sentir-se viver,
Mary, mal tu sabes quantos casais honestos, quantas famílias felizes,
Viveram em ti os meus olhos e o meu braço cingido e a minha consciência incerta,
A sua vida pacata, as suas casas suburbanas com jardim,
Os seus half-holidays inesperados...
Mary, eu sou infeliz...
Freddie, eu sou infeliz...
Oh, vós todos, todos vós, casuais, demorados,
Quantas vezes tereis pensado em pensar em mim, sem que o fosseis,
Ah, quão pouco eu fui no que sois, quão pouco, quão pouco
— Sim, e o que tenho eu sido, o meu subjetivo universo,
Ó meu sol, meu luar, minhas estrelas, meu momento,
Ó parte externa de mim perdida em labirintos de Deus!
Passa tudo, todas as coisas num desfile por mim dentro,
E todas as cidades do mundo, rumorejam-se dentro de mim...
Meu coração tribunal, meu coração mercado,
Meu coração sala da Bolsa, meu coração balcão de Banco,
Meu coração rendez-vous de toda a humanidade,
Meu coração banco de jardim público, hospedaria,
Estalagem, calabouço número qualquer cousa
(Aqui estuvo el Manolo en vísperas de ir al patíbulo)
Meu coração clube, sala, platéia, capacho, guichet, portaló,
Ponte, cancela, excursão, marcha, viagem, leilão, feira, arraial,
Meu coração postigo,
Meu coração encomenda,
Meu coração carta, bagagem, satisfação, entrega,
Meu coração a margem, o lirrite, a súmula, o índice,
Eh-lá, eh-lá, eh-lá, bazar o meu coração.

Todos os amantes beijaram-se na minh'alma,
Todos os vadios dormiram um momento em cima de mim,
Todos os desprezados encostaram-se um momento ao meu ombro,
Atravessaram a rua, ao meu braço, todos os velhos e os doentes,
E houve um segredo que me disseram todos os assassinos.

(...)

Álvaro de Campos

parabéns, Fernando


— Ter opiniões definidas e certas, instintos, paixões e caráter fixo e conhecido - tudo isto monta ao horror de tornar a nossa alma um fato, de a materializar e tornar exterior. Viver num doce e fluido estado de desconhecimento das coisas e de si próprio é o único modo de vida que a um sábio convém e aquece.




(do livro do desassossego)

um tostão para o santo antónio


Andava um garoto a pedir um tostãozinho para o Santo António. Uns davam, outros não.
Até que passou por ele um senhor de sobretudo comprido, até aos pés, e de sandálias,
vejam bem. E se estava frio!
O garoto, cá de baixo, reparou no desconcerto, não deu importância. E vá de pedir:
— Dê-me um tostãozinho para o Santo António...
O senhor do sobretudo castanho todo esfarrapado debruçou-se para o miúdo e,
sorrindo, disse-lhe assim:
— Tanto andas tu a pedir como eu. Hoje ainda não me deram nada.
— A mim já — respondeu o garoto. — Quer ver?
E mostrou-lhe, na palma da mão, umas tantas moedas. O mendigo contou-as.
— Davam e sobravam para pagar uma sopa e um pão, ali, na taberna da esquina —
observou o mendigo.
— Mas eu não tenho fome — preveniu o garoto. — A minha mãe deu-me de almoçar,
ainda agora.
O senhor mendigo suspirou e disse:
— Pois a minha mãe já morreu. Deve ser por isso que ainda não comi nada, hoje...
O mocinho olhou para o homem, a certificar-se se seria verdade o que ele dizia. Os
olhos tristes do mendigo garantiram-lhe que sim.
Foi a vez de o garoto suspirar:
— Este dinheiro era para eu comprar berlindes...
O homem de sandálias admirou-se:
— Mas tu, há bocadinho, não pedias para o Santo António?
O garoto riu-se:
A
— É um costume. Quero eu lá saber do Santo António! É tudo para os berlindes.
O mendigo não estranhou a revelação. Percebia-se, a conversa ia ficar por ali.
Despediu-se:
— Ainda tenho hoje muito que andar. Adeus e boa colheita.
O rapazinho viu-o descer a ruela, num passo cansado. Então, num impulso, correu atrás
dele e puxou pela ponta da corda, que o homem trazia à roda da cintura:
— Tome lá para um pão e para uma sopa. Mas não vá ali àquela casa da esquina, que são
uns mal-encarados. Na outra rua abaixo, há mais onde comer.
O homem de sandálias e sobretudo roto, que lhe davam um ar de frade de
antigamente, agradeceu as moedas e o conselho e seguiu caminho.
O garoto voltou ao seu poiso. E quando, pouco depois, porque estava frio, meteu as
mãos nos bolsos, encontrou-os atulhados de berlindes...



António Torrado
O mercador de coisa nenhuma
Porto, Livraria Civilização Editora, 1994

quinta-feira, 12 de junho de 2008

tatuagens

de cada vez que a tremura desata o desejo ...

quarta-feira, 11 de junho de 2008

terça-feira, 10 de junho de 2008

segunda-feira, 9 de junho de 2008

soneto de fidelidade



De tudo ao meu amor serei atento

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento.


Quero vivê-lo em cada vão momento

E em seu louvor hei de espalhar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento


E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama


Eu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.


Vinicius de Moraes


(enquanto estiver contigo estarei aqui, assim; beijo-te)

sexta-feira, 6 de junho de 2008

tabacaria

(escultura de bruno torf)



(a todos aqueles que se deixaram conhecer logo por quem não eram e não desmentiram, e se perderam, como eu também já fiz;
e também àqueles cuja secreta ambição é ser porteiro ou pianista num bordel)




Não sou nada.


Nunca serei nada.


Não posso querer ser nada.


à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.





Janelas do meu quarto,


Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é


(E se soubessem quem é, o que saberiam?),


Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,


Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,


Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,


Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,


Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,


Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.





Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.


Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,


E não tivesse mais irmandade com as coisas


Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua


A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada


De dentro da minha cabeça,


E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.





Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.


Estou hoje dividido entre a lealdade que devo


À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,


E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.





Falhei em tudo.


Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.


A aprendizagem que me deram,


Desci dela pela janela das traseiras da casa.


Fui até ao campo com grandes propósitos.


Mas lá encontrei só ervas e árvores,


E quando havia gente era igual à outra.


Saio da janela, sento-me numa cadeira.


Em que hei-de pensar?





Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?


Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!


E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!


Génio? Neste momento


Cem mil cérebros se concebem em sonho genios como eu,


E a história não marcará, quem sabe?, nem um,


Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.


Não, não creio em mim.


Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!


Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?


Não, nem em mim...


Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo


Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?


Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas


-Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas


-E, quem sabe, se realizáveis,


Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?


O mundo é para quem nasce para o conquistar


E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.


Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.


Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,


Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.


Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,


Ainda que não more nela;


Serei sempre o que não nasceu para isso;


Serei sempre só o que tinha qualidades;


Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta


E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,


E ouviu a voz de Deus num poço tapado.


Crer em mim? Não, nem em nada.


Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente


O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,


E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.


Escravos cardíacos das estrelas,


Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;


Mas acordámos e ele é opaco,


Levantamo-nos e ele é alheio,


Saímos de casa e ele é a terra inteira,


Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.





(Come chocolates, pequena;


Come chocolates!


Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.


Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.


Come, pequena suja, come!


Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!


Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,


Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)





Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei


A caligrafia rápida destes versos,


Pórtico partido para o Impossível.


Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,


Nobre ao menos no gesto largo com que atiro


A roupa suja que sou, em rol, para o decurso das coisas,


E fico em casa sem camisa.





(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,


Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,


Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,


Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,


Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,


Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,


Ou não sei que moderno - não concebo bem o quê


-Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!


Meu coração é um balde despejado.


Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco


A mim mesmo e não encontro nada.


Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.


Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,


Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,


Vejo os cães que também existem,


E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,


E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)





Vivi, estudei, amei e até cri,


E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.


Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,


E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses


(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);


Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo


E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente





Fiz de mim o que não soube


E o que podia fazer de mim não o fiz.


O dominó que vesti era errado.


Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.


Quando quis tirar a máscara,


Estava pegada à cara.


Quando a tirei e me vi ao espelho,


Já tinha envelhecido.


Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.


Deitei fora a máscara e dormi no vestiário


Como um cão tolerado pela gerência


Por ser inofensivo


E vou escrever esta história para provar que sou sublime.





Essência musical dos meus versos inúteis,


Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,


E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,


Calcando aos pés a consciência de estar existindo,


Como um tapete em que um bêbado tropeça


Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.





Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.


Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada


E com o desconforto da alma mal-entendendo.


Ele morrerá e eu morrerei.


Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.


A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.


Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,


E a língua em que foram escritos os versos.


Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.


Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente


Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,





Sempre uma coisa defronte da outra,


Sempre uma coisa tão inútil como a outra,


Sempre o impossível tão estúpido como o real,


Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,


Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.





Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),


E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.


Semiergo-me enérgico, convencido, humano,


E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.





Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los


E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.


Sigo o fumo como uma rota própria,


E gozo, num momento sensitivo e competente,


A libertação de todas as especulações


E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.





Depois deito-me para trás na cadeira


E continuo fumando.


Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.





(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira


Talvez fosse feliz.)


Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.


O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).


Ah, conheco-o; é o Esteves sem metafísica.


(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)


Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.


Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo


Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.





Álvaro de Campos

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Óscar Wilde




Quando Narciso morreu, a fonte do seu prazer tornou-se de uma taça de águas suaves uma taça de lágrimas amargas e as Oréades vieram chorando pelas florestas para cantar à fonte e dar-lhe consolação.


E quando viram que a fonte se tinha tornado de uma taça de águas suaves uma taça de lágrimas amargas, soltaram as verdes tranças do seu cabelo e falando à fonte disseram:


Não nos admira que chores assim por Narciso, tão belo era ele.


- Mas Narciso era belo? disse a fonte.


- Quem melhor que tu o pode saber? responderam as Oréades. Por nós passava ele sempre, deixando-nos, mas a ti buscava-te sempre e deitava-se à tua margem e olhava, debruçando-se, para ti e no espelho das tuas águas espelhava ele a sua beleza.


E a fonte respondeu: Mas eu amava Narciso porque, quando, deitado à minha margem, se debruçava fitando-me, no espelho dos seus olhos eu via sempre a minha própria beleza reflectida.


(óscar wilde chamou-lhe "o discípulo"; preferia chamar-lhe "morte absoluta")

domingo, 1 de junho de 2008

sangue latino

















Jurei mentiras


E sigo sozinho


Assumo os pecados


Uh! Uh! Uh! Uh!...





Os ventos do norte


Não movem moinhos


E o que me resta


É só um gemido...





Minha vida, meus mortos


Meus caminhos tortos


Meu Sangue Latino


Uh! Uh! Uh! Uh!


Minh'alma cativa...





Rompi tratados


Traí os ritos


Quebrei a lança


Lancei no espaço


Um grito, um desabafo...





E o que me importa


É não estar vencido


Minha vida, meus mortos


Meus caminhos tortos


Meu Sangue Latino


Minh'alma cativa...



Ney Matogrosso

benditos os seres alados

(foto: j.h.costa)
(foto: j.h.costa)




(foto:simone)

benditas as coisas pequeninas