quarta-feira, 4 de junho de 2008

Óscar Wilde




Quando Narciso morreu, a fonte do seu prazer tornou-se de uma taça de águas suaves uma taça de lágrimas amargas e as Oréades vieram chorando pelas florestas para cantar à fonte e dar-lhe consolação.


E quando viram que a fonte se tinha tornado de uma taça de águas suaves uma taça de lágrimas amargas, soltaram as verdes tranças do seu cabelo e falando à fonte disseram:


Não nos admira que chores assim por Narciso, tão belo era ele.


- Mas Narciso era belo? disse a fonte.


- Quem melhor que tu o pode saber? responderam as Oréades. Por nós passava ele sempre, deixando-nos, mas a ti buscava-te sempre e deitava-se à tua margem e olhava, debruçando-se, para ti e no espelho das tuas águas espelhava ele a sua beleza.


E a fonte respondeu: Mas eu amava Narciso porque, quando, deitado à minha margem, se debruçava fitando-me, no espelho dos seus olhos eu via sempre a minha própria beleza reflectida.


(óscar wilde chamou-lhe "o discípulo"; preferia chamar-lhe "morte absoluta")

2 comentários:

Fritz Cooper disse...

provavelmente narciso morreu, quando descobriu que era ele que alimentava o beleza da fonte, e não o contrário.
morreu, mas a fonte nasceu, afinal : como narcísica.

redeazul disse...

provavelmente))
afinal nada renasce sem morrer