sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Pablo Neruda


É Proibido


É proibido chorar sem aprender,

Levantar-se um dia sem saber o que fazer

Ter medo de suas lembranças.


É proibido não rir dos problemas

Não lutar pelo que se quer,

Abandonar tudo por medo,

Não transformar sonhos em realidade.


É proibido não demonstrar amor

Fazer com que alguém pague por tuas dúvidas e mau-humor.


É proibido deixar os amigos

Não tentar compreender o que viveram juntos

Chamá-los somente quando necessita deles.


É proibido não ser você mesmo diante das pessoas,

Fingir que elas não te importam,

Ser gentil só para que se lembrem de você,

Esquecer aqueles que gostam de você.


É proibido não fazer as coisas por si mesmo,

Não crer em Deus e fazer seu destino,

Ter medo da vida e de seus compromissos,

Não viver cada dia como se fosse um último suspiro.


É proibido sentir saudades de alguém sem se alegrar,

Esquecer seus olhos, seu sorriso, só porque seus caminhos se desencontraram,

Esquecer seu passado e pagá-lo com seu presente.


É proibido não tentar compreender as pessoas,

Pensar que as vidas deles valem mais que a sua,

Não saber que cada um tem seu caminho e sua sorte.


É proibido não criar sua história,

Deixar de dar graças a Deus por sua vida,

Não ter um momento para quem necessita de você,

Não compreender que o que a vida te dá, também te tira.


É proibido não buscar a felicidade,

Não viver sua vida com uma atitude positiva,

Não pensar que podemos ser melhores,

Não sentir que sem você este mundo não seria igual.



(não gosto de proibições; abro uma excepção para as dos poetas)

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

sábado, 23 de fevereiro de 2008

parabéns poeta

Contrariedades

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.

Dói-me a cabeça.
Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.

(...)

Cesário Verde - nascido a 23 de Fevereiro

(há dias assim)

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

petições de princípio

Devia-se estar sempre apaixonado. É a razão pela qual nunca nos devíamos casar.

Óscar Wilde


Não são as pessoas que são responsáveis pelo falhanço do casamento, é a própria instituição que é pervertida desde a origem.

Simone de Beauvoir

pois é ...

Não podendo suportar o amor, a Igreja quis ao menos desinfectá-lo, e então fez o casamento.
Baudelaire

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

às amigas, minhas



As fadas... eu creio n'ellas!

Umas são moças e bellas,

Outras, velhas de pasmar...

Umas vivem nos rochedos,

Outras, pelos arvoredos,

Outras, á beira do mar...


Algumas em fonte fria

Escondem-se, emquanto é dia,

Sáem só ao escurecer...

Outras, debaixo da terra,

Nas grutas verdes da serra,

É que se vão esconder...


O vestir... são taes riquezas,

Que rainhas, nem princezas

Nenhuma assim se vestiu!~

Porque as riquezas das fadas

São sabidas, celebradas

Por toda a gente que as viu...


Quando a noite é clara e amena

E a lua vae mais serena,

Qualquer as póde espreitar,

Fazendo roda, occupadas

Em dobar suas meadas

De ouro e de prata, ao luar.


O luar é os seus amores!

Sentadinhas entre as flóres

Horas se ficam sem fim,

Cantando suas cantigas,

Fiando suas estrigas,

Em roca de oiro e marfim.


Eu sei os nomes d'algumas:

Viviana ama as espumas

Das ondas nos areaes,

Vive junto ao mar, sósinha,

Mas costuma ser madrinha

Nos baptisados reaes.


Morgana é muito enganosa;

Ás vezes, moça e formosa,

E outras, velha, a rir, a rir...

Ora festiva, ora grave,

E vôa como uma ave,

Se a gente lhe quer bulir.


Que direi de Melusina?

De Titania, a pequenina,

Que dorme sobre um jasmim?

De cem outras, cuja gloria

Enche as paginas da historia

Dos reinos de el-rei Merlin?


Umas tem mando nos áres;

Outras, na terra, nos mares;

E todas trazem na mão

Aquella vara famosa,

A vara maravilhosa,

A varinha do condão.


O que ellas querem, n'um pronto,

Fez-se alli! parece um conto...

Mesmo de fadas... eu sei!

São condões que dão á gente,

Ou dinheiro reluzente

Ou joias, que nem um rei!


A mais pobre creancinha

Se quiz ser sua madrinha,

Uma fada... ai, que feliz!

São palacios, n'um momento...

Belleza, que é um portento...

Riqueza, que nem se diz...


Ou então, prendas, talento,

Sciencia, discernimento,

Graças, chiste, discrição...

Vê-se o pobre innocentinho

Feito um sabio, um adivinho,

Que aos mais sabios vae á mão!


Mas, com tudo isto, as fadas

São muito desconfiadas;

Quem as vê não hade rir.

Querem ellas que as respeitem,

E não gostam que as espreitem,

Nem se lhes hade mentir.


Quem as offende...

Cautela!A mais risonha, a mais bella,

Torna-se logo tão má,

Tão cruel, tão vingativa!

É inimiga aggressiva,

É serpente que alli está!


E têm vinganças terriveis!

Semeiam cousas horriveis,

Que nascem logo no chão...

Linguas de fogo que estalam!

Sapos com azas, que falam!

Um anão preto! um dragão!


Ou deitam sortes na gente...

O nariz faz-se serpente,

A dar pulos, a crescer...

É-se morcego ou veado...

E anda-se assim encantado,

Emquanto a fada quizer!


Por isso quem por estradas

Fôr, de noite, e vir as fadas

Nos altos mirando o céo,

Deve com geito falar-lhes

Muito cortez e tirar-lhes

Até ao chão o chapéo.


Porque a fortuna da gente

Está ás vezes sómente

N'uma palavra que diz;

Por uma palavra, engraça

Uma fada com quem passa,

E torna-o logo feliz.


Quantas vezes, já deitado,

Mas sem somno, inda acordado,

Me ponho a considerar

Que condão eu pediria,

Se uma fada, um bello dia,

Me quizesse a mim fadar...


O que seria? um thesouro?

Um reino? um vestido de ouro?

Ou um leito de marfim?

Ou um palacio encantado,

Com seu lago prateado

E com pavões no jardim?


Ou podia, se eu quizesse,

Pedir tambem que me désse

Um condão, para falar

A lingua dos passarinhos,

Que conversam nos seus ninhos...

Ou então, saber voar!


Oh, se esta noite, sonhando,

Alguma fada, engraçando

Commigo (podia ser!)

Me tocasse da varinha,

E fosse minha madrinha

Mesmo a dormir, sem a vêr...


E que ámanhã acordasse

E me achasse... eu sei? me achasse

Feito um principe, um emir!...

Até já, imaginando,

Se estão meus olhos fechando...

Deixa-me já, já dormir!


Antero de Quental

Maria Teresa Horta - a grande


Abrigo-me de ti
de mim não sei
há dias em que fujo
e que me evado

Há horas em que a raiva
não sequei
nem a inveja rasguei
ou a desfaço

Há dias em que nego
e outros onde nasço
há dias só de fogo
e outros tão rasgados

Aqueles onde habito com tantos
dias vagos.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

me & bobby mcgee

o primeiro me chegou como quem vem do florista
trouxe um bicho de pelúcia, trouxe um broche de ametista
me contou suas viagens e as vantagens que ele tinha
me mostrou o seu relógio,
me chamava de rainha

me encontrou tão desarmada
que tocou meu coração
mas não me negava nada
e, assustada, eu disse não.

o segundo me chegou como quem chega do bar
trouxe um litro de aguardente
tão amarga de tragar
indagou o meu passado e cheirou minha comida
vasculhou minha gaveta, me chamava de perdida

me encontrou tão desarmada
que arranhou meu coração
mas não me entregava nada
e, assustada, eu disse não.

o terceiro me chegou como quem chega do nada
ele não me trouxe nada, também nada perguntou
mal sei como ele se chama, mas entendo o que ele quer
se deitou na minha cama e me chama de mulher

foi chegando sorrateiro
e antes que eu dissesse não
se instalou feito um posseiro
dentro do meu coração.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

sempre presente




a kiss is just a kiss


You must remember this
A kiss is just a kiss, a sigh is just a sigh
The fundamental things apply
As time goes by
And when two lovers woo
They still say, "I love you"
On that you can rely
No matter what the future brings
As time goes by
Moonlight and love songs
Never out of date
Hearts full of passion
Jealousy and hate
Woman needs man
And man must have his mate
That no one can deny it's still the same old story
A fight for love and glory
A case of do or die
The world will always welcome lovers
As time goes by

a boca no coração

Perguntas à Língua Portuguesa , Mia Couto


Venho brincar aqui no Português, a língua. Não aquela que outros embandeiram. Mas a língua nossa, essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós, moçambicanos, ficarmos mais Moçambique. Que outros pretendam cavalgar o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta.
A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o voo. Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida. E quantas são? Se a Vida tem é idimensões?
Assim, embarco nesse gozo de ver como escrita e o mundo mutuamente se desobedecem. Meu anjo-da-guarda, felizmente, nunca me guardou.
Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia. Nós estamos simplesmente ocupados a sermos. Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. Nos falta domínio, carecemos de técnica. Ora qual é a nossa elegância? Nenhuma, excepto a de irmos ajeitando o pé a um novo chão. Ou estaremos convidando o chão ao molde do pé? Questões que dariam para muita conferência, papelosas comunicações. Mas nós, aqui na mais meridional esquina do Sul, estamos exercendo é a ciência de sobreviver. Nós estamos deitando molho sobre pouca farinha a ver se o milagre dos pães se repete na periferia do mundo, neste sulbúrbio.
No enquanto, defendemos o direito de não saber, o gosto de saborear ignorâncias. Entretanto, vamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira, que dança todas as brisas sem deslocar seu chão. Língua artesanal, plástica, fugidia a gramáticas.
Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas. Recriamos a língua na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo, um pensamento nosso. O idioma, afinal, o que é senão o ovo das galinhas de ouro?
Estamos, sim, amando o indomesticável, aderindo ao invisível, procurando os outros tempos deste tempo. Precisamos, sim, de senso incomum. Pois, das leis da língua, alguém sabe as certezas delas?
Ponho as minhas irreticências. Veja-se, num sumário exemplo, perguntas que se podem colocar à língua:
· Se pode dizer de um careca que tenha couro cabeludo?
· No caso de alguém dormir com homem de raça branca é então que se aplica a expressão: passar a noite em branco?
· A diferença entre um ás no volante ou um asno volante é apenas de ordem fonética?
· O mato desconhecido é que é o anonimato?
· O pequeno viaduto é um abreviaduto?
· Como é que o mecânico faz amor? Mecanicamente.
· Quem vive numa encruzilhada é um encruzilhéu?
· Se diz do brado de bicho que não dispõe de vértebras: o invertebrado?
· Tristeza do boi vem de ele não se lembrar que bicho foi na última reencarnação. Pois se ele, em anterior vida, beneficiou de chifre o que está ocorrendo não é uma reencornação?
· O elefante que nunca viu mar, sempre vivendo no rio: devia ter marfim ou riofim?
· Onde se esgotou a água se deve dizer: "aquabou"?
· Não tendo sucedido em Maio mas em Março o que ele teve foi um desmaio ou um desmarço?
· Quando a paisagem é de admirar constrói-se um admiradouro?
· Mulher desdentada pode usar fio dental?
· A cascavel a quem saiu a casca fica só uma vel?
· As reservas de dinheiro são sempre finas. Será daí que vem o nome: "finanças"?
· Um tufão pequeno: um tufinho?
· O cavalo duplamente linchado é aquele que relincha?
· Em águas doces alguém se pode salpicar?
· Adulto pratica adultério. E um menor: será que pratica minoritério?
· Um viciado no jogo de bilhar pode contrair bilharziose?
· Um gordo, tipo barril, é um barrilgudo?
· Borboleta que insiste em ser ninfa: é ela a tal ninfomaníaca?
Brincadeiras, brincriações. E é coisa que não se termina. Lembro a camponesa da Zambézia. Eu falo português corta-mato, dizia. Sim, isso que ela fazia é, afinal, trabalho de todos nós. Colocámos essoutro português – o nosso português – na travessia dos matos, fizemos com que ele se descalçasse pelos atalhos da savana.
Nesse caminho lhe fomos somando colorações. Devolvemos cores que dela haviam sido desbotadas – o racionalismo trabalha que nem lixívia. Urge ainda adicionar-lhe músicas e enfeites, somar-lhe o volume da superstição e a graça da dança. É urgente recuperar brilhos antigos.
Devolver a estrela ao planeta dormente.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

querida norá




10.10.2004 - 13.02.2008




partiste hoje macia e levezinha,

sem ti, a casa das sete mulheres ficou mais vazia...
obrigada por teres estado connosco



festas e mimos para ti, norá

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

citando Edward Elgar

A minha ideia é que há música no ar, há música à nossa volta, o mundo está cheio de música e cada um tira para si simplesmente aquela de que precisa.
Edward Elgar (n. 1857; m. 1934)


http://www.metacafe.com/w/1030291/

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Jorge Palma


O tempo não sabe nada, o tempo não tem razão
O tempo nunca existiu, o tempo é nossa invenção
Se abandonarmos as horas não nos sentimos sós

Meu amor, o tempo somos nós
O espaço tem o volume da imaginação
Além do nosso horizonte existe outra dimensão
O espaço foi construído sem principio nem fim

Meu amor, tu cabes dentro de mim

O meu tesouro és tu
Eternamente tu
Não há passos divergentes para quem se quer
Encontrar

A nossa história começa na total escuridão
Onde o mistério ultrapassa a nossa compreensão
A nossa história é o esforço para alcançar a luz
Meu amor, o impossível seduz.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

oração Bahá'í


"Ó Deus, refresca e alegra o meu espírito. Purifica o meu coração. Ilumina os meus poderes. Em Tuas mãos confio todos os meus interesses. És meu Guia e meu Refúgio. Não mais se apossarão de mim a tristeza e a ansiedade, e sim o contentameno e a alegria."



Esta é uma oração Bahá'í revelada por Bahá'u'lláh no século XIX.

vozes

entre os respeitabilíssimos direitos dos não fumadores e o não menos respeitável direito à auto determinação fica um vasto campo para soluções possíveis;
ou então, para as hilariantes, bastando para tal dar voz ao legislador português;
aqui ficam outras vozes, com a devida vénia aos citados:

" Por mais que me proibam de fumar, comer chouriço de sangue ou fazer sexo na cozinha, eu vou continuar a fumar, a comer chouriço de sangue e a fazer sexo na cozinha até quando muito bem entender - e não apenas até que José Sócrates me mande parar de fazê-lo"
Joel Neto, Notícias Sábado

"A lei apela aos não fumadores para que denunciem os fumadores, estimulando o delator que dorme no coração de muitos portugueses - de outra forma a PIDE não teria funcionado tão bem durante tantas décadas"
Inês Pedrosa, Única

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Asta Venta Vonzodas

Sinto em meu corpo


Sinto em meu corpo
sua língua.
Que me arde
Como se fosse
um chicote de fogo.
E mesmo que eu não queira
me induz a jogar o seu jogo.
Me entorpece os sentidos,
abafa-me os gemidos
até provocar o meu gozo.

Que poder é esse?
Que sedução devassa,
é essa que sinto sempre
que você me abraça?
Só de lhe ver me arrepia a pele,
em choques térmicos.
E me rendo pacífica
aos seus desejos hipotéticos.

Me excita e me choca
a sua ousadia.
Mas sempre mais e mais,
como num crescendo,
embarco na sua fantasia.
E quando entregue aos nossos devaneios
sentindo em meu corpo os seus meneios,
nada mais importa.
Abrimos do desejo as portas,
simplesmente porque você
é meu homem
e eu...sou sua mulher...

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

rape of a nation

http://mediastorm.org/0022.htm

não te enviei senão anjos

A Pequena Alma e o Sol

Era uma vez, em tempo nenhum, uma Pequena Alma que disse a Deus:
- Eu sei quem sou!
E Deus disse:
- Que bom! Quem és tu?
E a Pequena Alma gritou:
- Eu sou a Luz!
E Deus sorriu.
- É isso mesmo! – Exclamou Deus. – Tu és a Luz!
A Pequena Alma ficou muito contente, porque tinha descoberto aquilo que todas as almas do Reino deveriam descobrir.
- Uau, isto é mesmo bom! – Disse a Pequena Alma.
Mas, passado pouco tempo, saber quem era já não lhe chegava.
A Pequena Alma sentia-se agitada por dentro, e agora queria ser quem era. Então foi ter com Deus (o que não é má idéia para qualquer alma que queira ser Quem Realmente É) e disse:
- Olá, Deus! Agora que sei Quem Sou, posso sê-lo?
E Deus disse: - Quer dizer que queres ser Quem já És?
- Bem, uma coisa é saber Quem Sou, e outra coisa é sê-lo mesmo. Quero sentir como é ser a Luz! – Respondeu a Pequena Alma.
- Mas tu já és a Luz – repetiu Deus, sorrindo outra vez.
- Sim, mas quero senti-lo! – Gritou a Pequena Alma.
- Bem, acho que isso já era de esperar. Tu sempre foste aventureira – disse Deus com uma risada. Depois a sua expressão mudou.
- Há só uma coisa…
- O quê? – Perguntou a Pequena Alma.
- Bem, não há nada para além da Luz. Porque eu não criei nada para além daquilo que tu és; por isso, não vai ser fácil experimentares-te como Quem És, porque não há nada que tu não sejas.
- Hã? – Disse a Pequena Alma, que já estava um pouco confusa.
- Pensa assim: tu és como uma vela ao Sol. Estás lá, sem dúvida. Tu e mais milhões, bilhões de outras velas que constituem o Sol. E o sol não seria o Sol sem vocês.
Não, seria um sol sem uma das suas velas… e isso não seria de todo o Sol, pois não brilharia tanto. E, no entanto, como podes conhecer-te como a Luz quando estás no meio da luz – eis a questão.
- Bem, tu és Deus. Pensa em alguma coisa! – Disse a Pequena Alma, mais animada.
Deus sorriu novamente.
- Já pensei. Já que não podes ver-te como a Luz quando estás na Luz, vamos rodear-te de escuridão – disse Deus.
- O que é a escuridão? – Perguntou a Pequena Alma.
- É aquilo que tu não és – replicou Deus.
- Eu vou ter medo do escuro? – Choramingou a Pequena Alma.
- Só se o escolheres. Na verdade, não há nada de que devas ter medo, a não ser que assim o decidas. Porque estamos a inventar tudo. Estamos a fingir.
- Ah – disse a Pequena Alma, sentindo-se logo melhor.
Depois Deus explicou que, para experimentar o que quer que seja, tem de aparecer exatamente o oposto.
- É uma grande dádiva, porque sem ela não poderíamos saber como nada é – disse Deus. – Não poderíamos conhecer o Quente sem o Frio, o Alto sem o Baixo, o Rápido sem o Lento. Não poderíamos conhecer a Esquerda sem a Direita, o Aqui sem o Ali, o Agora sem o Depois. E, por isso, - continuou Deus – quando estiveres rodeada de escuridão, não levantes o punho nem a voz para amaldiçoar a escuridão.
“Sê antes uma Luz na escuridão, e não fiques furiosa com ela. Então saberás Quem Realmente És, e os outros também o saberão. Deixa que a tua Luz brilhe tanto que todos saibam como és especial!”
- Então posso deixar que os outros vejam que sou especial? – Perguntou a Pequena Alma.
- Claro! – Deus riu-se. – Claro que podes! Mas lembra-te de que “especial” não quer dizer “melhor”! Todos são especiais, cada qual à sua maneira! Só que muitos se esqueceram disso. Esses apenas vão ver que podem ser especiais quando tu vires que podes ser especial!
- Uau – disse a Pequena Alma, dançando e saltando e rindo e pulando. – Posso ser tão especial quanto quiser!
- Sim, e podes começar agora mesmo – disse Deus, também dançando e saltando e rindo e pulando juntamente com a Pequena Alma. – Que parte de especial é que queres ser?
- Que parte de especial? – Repetiu a Pequena Alma. – Não estou a perceber.- Bem, - explicou Deus – ser a Luz é ser especial, e ser especial tem muitas partes. É especial ser bondoso. É especial ser delicado. É especial ser criativo. É especial ser paciente. Conheces alguma outra maneira de ser especial?
A Pequena Alma ficou em silêncio por um momento.
- Conheço imensas maneiras de ser especial! – Exclamou a Pequena Alma. – É especial ser prestável. É especial ser generoso. É especial ser simpático. É especial ser atencioso com os outros.
- Sim! – Concordou Deus. – E tu podes ser todas essas coisas, ou qualquer parte de especial que queiras ser, em qualquer momento. É isso que significa ser a Luz.
- Eu sei o que quero ser, eu sei o que quero ser! – Proclamou a Pequena Alma com grande entusiasmo. – Quero ser a parte de especial chamada “perdão”. Não é especial ser alguém que perdoa?
- Ah, sim, isso é muito especial – assegurou Deus à Pequena Alma.
- Está bem. É isso que eu quero ser. Quero ser alguém que perdoa. Quero experimentar-me assim – disse a Pequena Alma.
- Bom, mas há uma coisa que devias saber – disse Deus.
A Pequena Alma já começava a ficar um bocadinho impaciente. Parecia haver sempre alguma complicação.
- O que é? – Suspirou a Pequena Alma.
- Não há ninguém a quem perdoar.
- Ninguém? – a Pequena Alma nem queria acreditar no que tinha ouvido.
- Ninguém! – Repetiu Deus. – Tudo o que eu fiz é perfeito. Não há uma única alma em toda a criação menos perfeita do que tu. Olha à tua volta.
Foi então que a Pequena Alma reparou na multidão que se tinha aproximado. Outras almas tinham vindo de todos os lados – de todo o Reino -, porque tinham ouvido dizer que a Pequena Alma estava a ter uma conversa extraordinária com Deus, e todas queriam ouvir o que eles estavam a dizer.
Olhando para todas as outras almas ali reunidas, a Pequena Alma teve de concordar. Nenhuma parecia menos maravilhosa, ou menos perfeita do que ela. Eram de tal forma maravilhosas, e a sua luz brilhava tanto, que a Pequena Alma mal podia olhar para elas.
- Então, perdoar quem? – Perguntou Deus.
- Bem, isto não vai ter piada nenhuma! – Resmungou a Pequena Alma. – Eu queria experimentar-me como Aquela Que Perdoa. Queria saber como é ser essa parte de especial.
E a Pequena Alma aprendeu o que é sentir-se triste.
Mas, nesse instante, uma Alma Amiga destacou-se da multidão e disse:
- Não te preocupes, Pequena Alma, eu vou ajudar-te – disse a Alma Amiga.
- Vais? – a Pequena Alma animou-se. – Mas o que é que tu podes fazer?
- Ora, posso dar-te alguém a quem perdoares!
- Podes?
- Claro! – Disse a Alma Amiga alegremente. – Posso entrar na tua próxima vida física e fazer qualquer coisa para tu perdoares.
- Mas, porquê? Porque é que farias isso? – Perguntou a Pequena Alma. – Tu, que és um Ser tão absolutamente perfeito! Tu, que vibras a uma velocidade tão rápida a ponto de criar uma Luz de tal forma brilhante que mal posso olhar para ti! O que é que te levaria a abrandar a tua vibração para uma velocidade tal que tornasse a tua Luz brilhante numa luz escura e baça? O que é que te levaria – a ti, que danças sobre as estrelas e te moves pelo Reino à velocidade do pensamento – a entrar na minha vida e a tornares-te tão pesada a ponto de fazeres algo de mal?
- É simples – disse a Alma Amiga. – Faço-o porque te amo.
A Pequena Alma pareceu surpreendida com a resposta.
- Não fiques tão espantada, - disse a Alma Amiga – tu fizeste o mesmo por mim. Não te lembras? Ah, nós já dançamos juntas, tu e eu, muitas vezes. Dançamos ao longo das eternidades e através de todas as épocas. Brincamos juntas através de todo o tempo e em muitos sítios. Só que tu não te lembras. Já fomos ambas o Todo. Fomos o Alto e o Baixo, a Esquerda e a Direita. Fomos o Aqui e o Ali, o Agora e o Depois. Fomos o masculino e o feminino, o bom e o mau – fomos ambas a vítima e o vilão. Encontramo-nos muitas vezes antes, tu e eu; cada uma trazendo à outra a oportunidade exacta e perfeita para Expressar e Experimentar Quem Realmente Somos.
- E assim, - a Alma Amiga explicou mais um bocadinho – eu vou entrar na tua próxima vida física e ser a “má” desta vez. Vou fazer alguma coisa terrível, e então tu podes experimentar-te como Aquela Que Perdoa.
- Mas o que é que vais fazer que seja assim tão terrível? – Perguntou a Pequena Alma, um pouco nervosa.
- Oh, havemos de pensar nalguma coisa – respondeu a Alma Amiga, piscando o olho.
Então a Alma Amiga pareceu ficar séria, e disse numa voz mais calma:
- Mas tens razão acerca de uma coisa, sabes?
- Sobre o quê? – Perguntou a Pequena Alma.
- Eu vou ter de abrandar a minha vibração e tornar-me muito pesada para fazer esta coisa não-muito-boa. Vou ter de fingir ser uma coisa muito diferente de mim. E por isso, só te peço um favor em troca.
- Oh, qualquer coisa, o que tu quiseres! – Exclamou a Pequena Alma, e começou a dançar e a cantar: - Eu vou poder perdoar; eu vou poder perdoar!
Então a Pequena Alma viu que a Alma Amiga estava muito quieta.
- O que é? – Perguntou a Pequena Alma. – O que é que eu posso fazer por ti?
És um anjo por estares disposta a fazer isto por mim!
- Claro que esta Alma Amiga é um Anjo! – Interrompeu Deus. – São todas!
Lembra-te sempre: não te enviei senão Anjos.
E então a Pequena Alma quis mais do que nunca satisfazer o pedido da Alma Amiga. – O que é que posso fazer por ti? – Perguntou novamente a Pequena Alma.
- No momento em que eu te atacar e atingir - respondeu a Alma Amiga – no momento em que te fizer a pior coisa que possas imaginar – nesse preciso momento…
- Sim? – Interrompeu a Pequena Alma. – Sim…?
A Alma Amiga ficou ainda mais quieta.
- Lembra-te de Quem Realmente Sou.
- Oh, não me hei-de esquecer! - Gritou a Pequena Alma. - Prometo! Lembrar-me-ei sempre de ti tal como te vejo aqui e agora.
- Que bom, - disse a Alma Amiga - porque, sabes, eu vou estar a fingir tanto, que eu própria me vou esquecer. E se tu não te lembrares de mim tal como eu sou realmente, eu posso também não me lembrar durante muito tempo. E se eu me esquecer de Quem Sou, tu podes esquecer-te de Quem És, e ficaremos as duas perdidas. Então, vamos precisar que venha outra alma para nos lembrar às duas Quem Somos.
- Não vamos, não! - Prometeu outra vez a Pequena Alma. - Eu vou lembrar-me de ti! E vou agradecer-te por esta dádiva - a oportunidade que me dás de me experimentar como Quem Eu Sou.
E, assim, o acordo foi feito. E a Pequena Alma avançou para uma nova vida, entusiasmada por ser a Luz, que era muito especial, e entusiasmada por ser aquela parte especial a que se chama Perdão.
E a Pequena Alma esperou ansiosamente pela oportunidade de se experimentar como Perdão, e por agradecer a qualquer outra alma que o tornasse possível.
E, em todos os momentos dessa nova vida, sempre que uma nova alma aparecia em cena, quer essa nova alma trouxesse alegria ou tristeza - e principalmente se trouxesse tristeza - a Pequena Alma pensava no que Deus tinha dito.
- Lembra-te sempre, - Deus aqui tinha sorrido - não te enviei senão Anjos.



- Neale Donald Walsch -