segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

às amigas, minhas



As fadas... eu creio n'ellas!

Umas são moças e bellas,

Outras, velhas de pasmar...

Umas vivem nos rochedos,

Outras, pelos arvoredos,

Outras, á beira do mar...


Algumas em fonte fria

Escondem-se, emquanto é dia,

Sáem só ao escurecer...

Outras, debaixo da terra,

Nas grutas verdes da serra,

É que se vão esconder...


O vestir... são taes riquezas,

Que rainhas, nem princezas

Nenhuma assim se vestiu!~

Porque as riquezas das fadas

São sabidas, celebradas

Por toda a gente que as viu...


Quando a noite é clara e amena

E a lua vae mais serena,

Qualquer as póde espreitar,

Fazendo roda, occupadas

Em dobar suas meadas

De ouro e de prata, ao luar.


O luar é os seus amores!

Sentadinhas entre as flóres

Horas se ficam sem fim,

Cantando suas cantigas,

Fiando suas estrigas,

Em roca de oiro e marfim.


Eu sei os nomes d'algumas:

Viviana ama as espumas

Das ondas nos areaes,

Vive junto ao mar, sósinha,

Mas costuma ser madrinha

Nos baptisados reaes.


Morgana é muito enganosa;

Ás vezes, moça e formosa,

E outras, velha, a rir, a rir...

Ora festiva, ora grave,

E vôa como uma ave,

Se a gente lhe quer bulir.


Que direi de Melusina?

De Titania, a pequenina,

Que dorme sobre um jasmim?

De cem outras, cuja gloria

Enche as paginas da historia

Dos reinos de el-rei Merlin?


Umas tem mando nos áres;

Outras, na terra, nos mares;

E todas trazem na mão

Aquella vara famosa,

A vara maravilhosa,

A varinha do condão.


O que ellas querem, n'um pronto,

Fez-se alli! parece um conto...

Mesmo de fadas... eu sei!

São condões que dão á gente,

Ou dinheiro reluzente

Ou joias, que nem um rei!


A mais pobre creancinha

Se quiz ser sua madrinha,

Uma fada... ai, que feliz!

São palacios, n'um momento...

Belleza, que é um portento...

Riqueza, que nem se diz...


Ou então, prendas, talento,

Sciencia, discernimento,

Graças, chiste, discrição...

Vê-se o pobre innocentinho

Feito um sabio, um adivinho,

Que aos mais sabios vae á mão!


Mas, com tudo isto, as fadas

São muito desconfiadas;

Quem as vê não hade rir.

Querem ellas que as respeitem,

E não gostam que as espreitem,

Nem se lhes hade mentir.


Quem as offende...

Cautela!A mais risonha, a mais bella,

Torna-se logo tão má,

Tão cruel, tão vingativa!

É inimiga aggressiva,

É serpente que alli está!


E têm vinganças terriveis!

Semeiam cousas horriveis,

Que nascem logo no chão...

Linguas de fogo que estalam!

Sapos com azas, que falam!

Um anão preto! um dragão!


Ou deitam sortes na gente...

O nariz faz-se serpente,

A dar pulos, a crescer...

É-se morcego ou veado...

E anda-se assim encantado,

Emquanto a fada quizer!


Por isso quem por estradas

Fôr, de noite, e vir as fadas

Nos altos mirando o céo,

Deve com geito falar-lhes

Muito cortez e tirar-lhes

Até ao chão o chapéo.


Porque a fortuna da gente

Está ás vezes sómente

N'uma palavra que diz;

Por uma palavra, engraça

Uma fada com quem passa,

E torna-o logo feliz.


Quantas vezes, já deitado,

Mas sem somno, inda acordado,

Me ponho a considerar

Que condão eu pediria,

Se uma fada, um bello dia,

Me quizesse a mim fadar...


O que seria? um thesouro?

Um reino? um vestido de ouro?

Ou um leito de marfim?

Ou um palacio encantado,

Com seu lago prateado

E com pavões no jardim?


Ou podia, se eu quizesse,

Pedir tambem que me désse

Um condão, para falar

A lingua dos passarinhos,

Que conversam nos seus ninhos...

Ou então, saber voar!


Oh, se esta noite, sonhando,

Alguma fada, engraçando

Commigo (podia ser!)

Me tocasse da varinha,

E fosse minha madrinha

Mesmo a dormir, sem a vêr...


E que ámanhã acordasse

E me achasse... eu sei? me achasse

Feito um principe, um emir!...

Até já, imaginando,

Se estão meus olhos fechando...

Deixa-me já, já dormir!


Antero de Quental

Sem comentários: