sexta-feira, 21 de novembro de 2008

medos e riscos

Escolher um caminho significava abandonar outros.
Tinha uma vida inteira para viver e pensava sempre que talvez se arrependesse, no futuro, das coisas que queria fazer agora.
"Tenho medo de me comprometer", pensou consigo mesma. Queria percorrer todos os caminhos possíveis e ia acabar por não percorrer nenhum.
Nem mesmo na coisa mais importante da sua vida, o amor, tinha conseguido ir até ao fim; depois da primeira decepção, nunca mais se entregara por completo. Temia o sofrimento, a perda, a inevitável separação. Claro, estas coisas estavam sempre presentes na estrada do amor - e a única maneira de as evitar era renunciar a percorrer a estrada. Para não sofrer, era preciso também não amar.
Como se, para não ver as coisas más da vida, acabasse por precisar de furar os olhos.
"É muito complicado, viver."
Era preciso correr riscos, seguir certos caminhos e abandonar outros. Lembrou-se de Wicca a falar das pessoas que seguem os caminhos apenas para provar que não servem para elas. Mas isso não era o pior. O pior era escolher e ficar o resto da vida a pensar se escolhera bem. Nenhuma pessoa era capaz de escolher sem medo.
No entanto, esta era a lei da vida. Esta era a Noite Escura e ninguém podia fugir da Noite Escura, mesmo que nunca tomasse uma decisão, mesmo que não tivesse coragem para mudar nada; porque isso em si já era uma decisão, uma mudança. E sem os tesouros escondidos na Noite Escura.
Lorens podia ter razão. No final, iriam rir dos medos que tiveram no início.

Paulo Coelho - "Brida"

(àquele que escolheu um caminho, só para provar que não lhe servia,
àquele que por ter medo de sofrer, não se entregou,
àquela a quem o medo paralisou, por muito tempo,
- todos capazes do melhor e do pior, companheiros desta vida)

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