segunda-feira, 12 de maio de 2008

poema temperamental


Ó caralho! Ó caralho!

Quem abateu estas aves?

Quem é que sabe? quem é

que inventou a pasmaceira?

Que puta de bebedeira

é esta que em nós se vem

já desde o ventre da mãe

e que tem a nossa idade?

Ó caralho! Ó caralho!

Isto de a gente sorrir

com os dentes cariados

esta coisa de gritar

sem ter nada na goela

faz-nos abrir a janela.

Faz doer a solidão.

Faz das tripas coração.

Ó caralho! Ó caralho!

Porque não vem o diabo

dizer que somos um povo

de heróicos analfabetos?

Na cama fazemos netos

porque os filhos não são nossos

são produtos do acaso

desde o sangue até aos ossos.

Ó caralho! Ó caralho!

Um homem mede-se aos palmos

se não há outra medida

e põe-se o dedo na ferida

se o dedo lá for preciso.

Não temos que ter juízo

o que é urgente é ser louco

quer se seja muito ou pouco.

Ó caralho! Ó caralho!

Porque é que os poemas dizem

o que os poetas não querem?

Porque é que as palavras ferem

como facas aguçadas

cravadas por toda a parte?

Porque é que se diz que a arte

é para certas camadas?

Ó caralho! Ó caralho!

Estes fatos por medida

que vestimos ao domingo

tiram-nos dias de vida

fazem guardar-nos segredos

e tornam-nos tão cruéis

que para comprar anéis

vendemos os próprios dedos.

Ó caralho! Ó caralho!

Falta mudar tanta coisa.

Falta mudar isto tudo!

Ser-se cego surdo e mudo

entre gente sem cabeça

não é desgraça completa.

É como ser-se poeta

sem que a poesia aconteça.

Ó caralho! Ó caralho!

Nunca ninguém diz o nome

do silêncio que nos mata

e andamos mortos de fome

(mesmo os que trazem gravata)

com um nó junto à garganta.

O mal é que a gente canta

quando nos põem a pata.

Ó caralho! Ó caralho!

O melhor era fingir

que não é nada connosco.

O melhor era dizer

que nunca mais há remédio

para a sífilis. Para o tédio.

Para o ócio e a pobreza.

Era melhor. Com certeza.

Ó caralho! Ó caralho!

Tudo são contas antigas.

Tudo são palavras velhas.

Faz-se um telhado sem telhas

para que chova lá dentro

e afogam-se os moribundos

dentro do guarda-vestidos

entre vaias e gemidos.

Ó caralho! Ó caralho!

Há gente que não faz nada

nem sequer coçar as pernas.

Há gente que não se importa

de viver feita aos bocados

com uma alma tão morta

que os mortos berram à porta

dos vivos que estão calados.

Ó caralho! Ó caralho!

Já é tempo de aprender

quanto custa a vida inteira

a comer e a beber
e a viver dessa maneira.

Já é tempo de dizer

que a fome tem outro nome.

Que viver já é ter fome.

Ó caralho! Ó caralho!Ó caralho!



(Joaquim Pessoa)

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