domingo, 11 de maio de 2008

a loja da verdade


O homem passeava pelas ruazinhas da cidade provinciana.

Como dispunha de tempo, parava alguns instantes à frente de cada montra, de cada loja, de cada praça.

Ao virar de uma esquina, encontrou-se, de repente, perante um modesto estabelecimento, cuja montra estava vazia. Intrigado, aproximou-se do vidro e encostou a cara para poder espreitar lá para dentro... No interior, via-se apenas um cartaz escrito à mão, a anunciar:
Loja da Verdade
O homem ficou surpreendido. Pensou que era um nome a brincar, mas não conseguiu imaginar o que lá venderiam.

Entrou. Aproximou-se da rapariga que estava ao balcão e perguntou:- Desculpe, esta é a loja da verdade?

- É sim, senhor. Que tipo de verdade procura? Verdade parcial, verdade relativa, verdade estatística, verdade completa?

Portanto, vendia-se ali a verdade. Nunca imaginara que fosse possível.

Entrar numa loja e sair com a verdade era maravilhoso.

- Verdade completa - respondeu o homem, sem hesitar.

«Estou tão cansado de mentiras e falsificações», pensou. «Não quero mais generalizações nem justificações, enganos ou fraudes.»

- Verdade plena! - ratificou.- Está bem, meu senhor. Siga-me.

A rapariga acompanhou o cliente a outro sector e, apontando para um vendedor de rosto sério, disse-lhe:

- Aquele senhor vai atendê-lo.

O vendedor aproximou-se e esperou que o homem falasse.

- Venho comprar a verdade completa.

- Ah. Perdoe-me, mas o senhor sabe o preço?

- Não, qual é? - respondeu casualmente.

Na realidade, sabia que estava disposto a pagar fosse o que fosse pela verdade absoluta.

- Se o senhor a levar - disse o vendedor -, o preço é nunca mais tornar a ter paz de espírito.

O homem foi percorrido de alto a baixo por um arrepio.

Nunca imaginara que o preço fosse tão elevado.

- Obri... obrigado... desculpe... - balbuciou.

Deu meia volta e saiu da loja, de olhos postos no chão.

Sentiu-se um pouco triste ao perceber que ainda não estava preparado para a verdade absoluta, que ainda precisava de algumas mentiras para ter descanso, alguns mitos e idealizações nos quais se pudesse refugiar, algumas justificações para não ter de se enfrentar a si mesmo...

«Talvez um dia, mais tarde», pensou.


(Jorge Bucay)

Sem comentários: