" Na época em que o género humano se eleva até à redacção escrita das suas mitologias e das suas leis, o patriarcado acha-se definitivamente estabelecido: são os homens que compões os códigos.
É natural que dêem à mulher uma situação subordinada.
Mas poderia imaginar-se que a considerassem com a mesma benevolência com que encaram as reses e as crianças.
Não é o que se passa.
Organizando a opressão da mulher, os legisladores têm medo dela.
Das virtudes ambivalentes de que ela se revestia retém-se principalmente o aspecto nefasto: de sagrada, ela torna-se impura.
Eva entregue a Adão para ser sua companheira, perde o género humano; quando querem vingar-se dos homens, os deuses pagãos inventam a mulher, e Pandora, que desencadeia todos os males de que sofre a humanidade, é a primeira dessas criaturas.
O Outro é a passividade em face da actividade, a diversidade que quebra a unidade, a matéria oposta à forma, a desordem que resiste à ordem.
A mulher é, assim, votada ao mal. "Há um princípio bom que criou a ordem, a luz e o homem; e um princípio mau que criou o caos, as trevas e a mulher", diz Pitágoras.
As leis de Manu definem-na como um ser vil que convém manter escravizado.
O Levítico assimila-a aos animais de carga que o patriarca possui.
As leis de Sólon não lhe conferem qualquer direito.
O código romano coloca-a sob tutela e proclama-lhe a "imbecilidade".
O direito canónico considera-a a "porta do Diabo".
O Corão trata-a com o mais absoluto desprezo.
E, no entanto, o mal é necessário ao bem, a matéria à ideia, a noite à luz.
O homem sabe que para saciar os seus desejos, para perpetuar a sua existência, a mulher lhe é indispensável.
É preciso integrá-la na sociedade: na medida em que se submete à ordem estabelecida pelos homens, ela purifica-se da sua mácula original.
Essa ideia é fortemente expressa nas leis de Manu: "Uma mulher, mediante um casamento legítimo, adquire as mesmas qualidades do seu esposo, como o rio que se perde no oceano, e é admitida, depois da morte, no mesmo paraíso celeste.
Assim traça a Bíblia, com elogios, o retrato da "mulher forte".
O cristianismo, apesar do seu ódio à carne, respeita a virgem consagrada e a esposa casta e dócil.
Associada ao culto, pode a mulher chegar a ter um papel religioso importante: a brâmane nas Índias, a flamínia em Roma são tão santas quanto seus maridos; é o homem que domina no casal, mas a união dos princípios masculino e feminino permanece necessária ao mecanismo da fecundidade, à vida e à ordem da sociedade.
É essa ambivalência do Outro, da mulher, que irá reflectir-se na sua história; permanecerá até aos nossos dias submetida à vontade dos homens.
Mas essa vontade é ambígua: através de uma anexação total, a mulher seria rebaixada ao nível de uma coisa; ora o homem pretende revestir da sua própria dignidade o que conquista e possui; o Outro conserva, a seus olhos, um pouco da sua magia primitiva; como fazer da esposa ao mesmo tempo uma serva e uma companheira, eis um dos problemas que procurará resolver; assim a sua atitude evoluirá através dos séculos, o que acarretará também uma evolução no destino feminino."
O Segundo Sexo - Simone de Beauvoir
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