terça-feira, 21 de abril de 2009

a mulher no imaginário masculino

Considerações acerca da origem da guerra entre os sexos



Eis aí o ingrediente essencial para o estabelecimento e perpetuação da guerra entre os sexos: a inveja recíproca. Ela contém um elemento agressivo que deve se manifestar de forma subtil e disfarçada; os homens que ressentem muito as mulheres poderão se posicionar como se fossem encantados por elas – o que, de resto, é verdade. A inveja corresponde ao surgimento de reacções agressivas em relação a alguém que admiramos muito justamente por ser portadora de características que também gostaríamos de ter. Assim, nosso sentimento por essa pessoa será sempre ambivalente.



Na prática, tal mistura pode determinar uma conduta masculina muito típica do conquistador: o homem se mostra, sem muita dificuldade, encantado por uma dada mulher; faz de tudo para seduzi-la dando-lhe demonstrações de enorme interesse humano, quando, na verdade, o real interesse é essencialmente sexual; consegue induzi-la à intimidade física e depois desaparece de sua vida, fazendo-a sofrer muito; este último procedimento decorre do ingrediente agressivo, vingativo mesmo. É como se aquela mulher estivesse pagando por todas as outras que lhe despertaram o desejo. Desaparecer depois de seduzi-la é humilhá-la, fazer com que ela sinta dores similares às que ele sentiu quando as mulheres em geral o rejeitaram, especialmente durante os anos da puberdade. Muitos são aqueles que gastam boa parte de sua energia, ao longo de toda a vida adulta, nesse tipo de actividade, na qual não estão buscando apenas prazeres eróticos intensos, mas também tentando resgatar a auto-estima que perderam durante os anos da adolescência.



Reacção das mulheres em relação aos comportamentos masculinos que caracterizam o machismo



Ao perceberem que os homens se sentem diminuídos por desejarem e não serem correspondidos da mesma maneira, elas se empenham ainda mais em se tornar atraentíssimas. Fazem isso com o intuito de chamar-lhes a atenção e agradá-los? Esse ingrediente também está presente, parte do erotismo típico da vaidade; quando imaginam o desejo que irão despertar, poderão se deleitar antecipadamente e até se excitar sexualmente com isso.
Há clara maldade na postura das mulheres que se empenham em se tornar enormemente atraentes, sobretudo quando o objectivo delas é apenas o de provocar o desejo masculino para que eles se sintam humilhados por uma eventual rejeição.



Um outro grupo de moças, nada pequeno, percebe o poder que elas têm aos olhos dos homens, o qual será tanto maior quanto mais forem capazes de se vestir e de se comportar de determinados modos que eles sintam como particularmente excitantes. A excitação que isso lhes causa pode provocar uma certa perturbação íntima, mas aprendem a sentir mais prazer em provocar o desejo do que em sentir qualquer tipo de excitação sexual que não seja aquela derivada do exercício da vaidade. Para elas, despertar o desejo dos homens, tê-los rendidos aos seus pés torna-se o mais importante. Nesse caso, existe o benefício simultâneo de dois componentes do processo: a vaidade e o desejo agressivo; o ingrediente vingativo e invejoso passa a participar activamente do fenómeno sexual. Aliás, é por razões dessa ordem que ainda temos muito que pensar sobre a dramática associação, presente, em doses variadas, em quase todos nós, entre sexualidade e agressividade. Para tais moças, como regra as mais atraentes, o poder sensual se torna um instrumento de dominação, humilhação e uma arma muito poderosa. Sim, porque sabemos o quanto os homens são sensíveis a esse tipo de encanto.




A instrumentalização do poder sensual, executada justamente por um bom número das mulheres mais bonitas, atraentes e que são cobiçadas por muitos homens, acaba por ser percebida pelos mais inteligentes e perspicazes. O que eles fazem? Tratam de sofisticar ainda mais seus poderes e de instrumentalizá-los na mesma medida. Assim, muitos homens vão se apercebendo que só terão acesso a essas mulheres se tiverem boa posição económica, social e profissional. Esforçam-se por conseguir tais distinções e, aparentemente, as oferecem às belas mulheres que tanto os encantam. Na realidade, apenas usam seus sucessos como uma espécie de "chamariz", da mesma forma que elas se utilizam da beleza. Mostram o que têm, mas não dão nada. Levam as belas moças para passear nos seus lindos carros, lhes dão "presentinhos" de valor duvidoso e tratam de, através de seus poderes, seduzi-las a partir da hipótese de que não é impossível que consigam conquistar um homem assim, um "vencedor". Eles, na verdade, buscam o sucesso essencialmente com o intuito de melhorar sua posição nesse jogo de poder que se estabelece em relação às mulheres mais belas; depois, querem mesmo é envolvê-las, ter a intimidade física desejada para, logo em seguida, rejeitá-las e humilhá-las. Elas aperfeiçoam suas armas por um lado e eles fazem o mesmo por outro.



Um número nada desprezível de homens pode reagir de forma diferente diante da instrumentalização da sexualidade feminina: inibem o desejo em relação a elas. Tal inibição poderá determinar uma variedade de sintomas que chamamos de impotência sexual, sobre os quais temos que reflectir mais profundamente, uma vez que podem muito bem ser explicados por razões lógicas e até mesmo plausíveis e não sempre como uma patologia.



A inveja recíproca só cresce, assim como as hostilidades. Tudo fica camuflado por uma aparente disposição de natureza romântica entre homens e mulheres, sendo que o que realmente está em vigor é uma terrível luta pelo poder. Não creio que se possa sequer pensar em ingredientes amorosos em tais condições – e que, na prática, corresponde apenas a um dos ingredientes que envolvem essa complexa condição de relacionamento entre os sexos. Nem mesmo se pode pensar em importantes ingredientes eróticos, uma vez que o elemento fundamental envolvido é mesmo o de natureza agressiva.




Minha intenção principal foi mostrar, a partir dessa sumaríssima descrição, como todos nós, homens e mulheres, nos perdemos de nós mesmos e, em virtude da forma como internalizamos e sentimos essa diferença na natureza da nossa sexualidade, nos tornamos escravos uns dos outros. Na realidade, nessa guerra, como em tantas outras, não existem vencedores e vencidos. Todos perdemos. Nos afastamos de nós mesmos, passamos a nos preocupar mais do que deveríamos com o que os outros pensam sobre nós e, em especial, os do sexo oposto. Homens e mulheres não buscam suas identidades, não podem se encontrar consigo mesmos e com suas verdadeiras pretensões. Se tornam escravos dessa diferença sexual mal equacionada e mal aceita; além disso, perdem o contacto com o sexo como fonte de puro prazer. A grande verdade é que, em nossa espécie, o sexo está associado à agressividade de uma forma muito mais categórica do que ao amor.




(F. Gikovate - "reflexões sobre o feminino")

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