terça-feira, 2 de setembro de 2008

da falta que o Outro faz e da dificuldade em alcançá-lo

A história mostrou-nos que os homens detiveram sempre todos os poderes concretos; desde os primeiros tempos do patriarcado, julgaram útil manter a mulher em estado de dependência; os seus códigos estabeleceram-se contra ela; e foi assim que ela se constituiu concretamente como Outro.

Esta condição servia os interesses dos homens, mas convinha também às suas pretensões ontológicas e morais.

Desde que o sujeito busque afirmar-se, o Outro, que o limita e nega, é-lhe entretanto necessário: ele só se atinge através dessa realidade que ele não é.

Por isso, a vida do homem nunca é plenitude e repouso, é carência e movimento, é luta.

Diante de si, o homem encontra a natureza; tem possibilidade de dominá-la e tenta apropriar-se dela. Mas ela não pode satisfazê-lo. Ou ela só se realiza como uma oposição puramente abstracta, e é então obstáculo e permanece alheia, ou se dobra passivamente ao desejo do homem e deixa-se assimilar por ele; ele só a possui consumindo-a, isto é, destruindo-a. Nesses dois casos ele continua só: está só quando toca uma pedra, só quando digere um fruto. Só há presença do Outro se o Outro é ele próprio presente em si; isso significa que a verdadeira alteridade é a de uma consciência separada da minha e idêntica a ela.

É a existência dos outros homens que tira o homem da sua imanência e lhe permite realizar a verdade do seu ser, realizar-se como transcedência, como fuga para o objecto, como projecto.

Mas essa liberdade alheia, que confirma a minha liberdade, entra também em conflito com ela: é a tragédia da consciência infeliz; toda a consciência aspira a colocar-se como sujeito soberano.

Toda a consciência tenta realizar-se reduzindo a outra à escravidão.

Mas o escravo, no seu trabalho e no seu medo, sente-se ele também como essencial e em virtude de uma reviravolta dialética é o senhor que a ele se apresenta como não essencial.

O drama pode ser resolvido pelo livre reconhecimento de cada indivíduo no outro, cada qual pondo, ao mesmo tempo, a si e ao outro como objecto e como sujeito num movimento recíproco.

Mas a amizade e a generosidade que realizam concretamente esse reconhecimento das liberdades, não são virtudes fáceis; são seguramente a mais alta realização do homem, e é desse modo que ele se encontra na sua verdade: mas essa verdade é a de uma luta incessantemente esboçada e abolida.

Ela exige que o homem se supere a cada instante. Pode dizer-se também, numa outra linguagem, que o homem atinge uma atitude autenticamente moral quando renuncia a ser para assumir a sua existência; com essa conversão ele renuncia também a toda a posse, porque a posse é um modo de procura do ser; mas a conversão pela qual ele atinge a verdadeira sabedoria nunca se completa, é preciso fazê-la sem cessar, ela reclama uma tensão constante.

De maneira que, incapaz de se realizar na solidão, o homem, nas suas relações com os seus semelhantes, acha-se permanentemente em perigo: a sua vida é uma empresa difícil, cujo êxito nunca se encontra assegurado.

chagall

Mas ele não aprecia a dificuldade; teme o perigo.

Contraditoriamente, aspira à vida e ao repouso, à existência e ao ser; sabe muito bem que a "inquietação do espírito" é o preço que tem de pagar pelo seu desenvolvimento, que a sua distância em relação ao objecto é o que lhe custa a sua presença em si: mas ele sonha com a quietude na inquietude e com uma plenitude opaca que a consciência, contudo, habitaria.

Esse sonho encarnado é precisamente a mulher; ela é o intermediário desejado entre a natureza exterior ao homem e o semelhante que lhe é por demais idêntico. Ela não lhe opõe nem o silêncio inimigo da Natureza, nem a dura exigência de um reconhecimento recíproco; por um privilégio único, ela é uma consciência e, no entanto, parece possível possuí-la na sua carne. Graças a ela, há um meio de escapar à implacável dialéctica do senhor e do escravo, que tem a sua base na reciprocidade das liberdades.

Viu-se que não houve, a princípio, mulheres livres que os homens teriam escravizado e que nunca a divisão dos sexos criou uma divisão em castas. Assimilar a mulher ao escravo é um erro. Houve mulheres entre os escravos, mas sempre existiram mulheres livres, isto é, revestidas de dignidade religiosa e social; elas aceitavam a soberania do homem e este não se sentia ameaçado por uma revolta que o pudesse transformar, por sua vez, em objecto.

A mulher apresenta-se assim como o não essencial que nunca retorna ao essencial, como o Outro absoluto, sem reciprocidade. Todos os mitos da criação exprimem essa convicção preciosa do macho e, entre outras, a lenda do Génese, que, através do cristianismo, se perpetuou na civilização ocidental. Eva não foi criada ao mesmo tempo que o homem; não foi fabricada com uma substância diferente, nem com o mesmo barro que serviu para moldar Adão: ela foi tirada do flanco do primeiro macho. O seu nascimento não foi autónomo; Deus não resolveu espontaneamente criá-la com um fim em si e para ser por ela adorado em paga: destinou-a ao homem. Foi para salvar Adão da solidão que ele lha deu, ela tem no marido a sua origem e o seu fim; ela é o seu complemento no modo do não essencial. E assim ela surge como uma presa privilegiada. É a Natureza elevada à transparência da consciência, uma consciência naturalmente submissa.

E é essa maravilhosa esperança que muitas vezes o homem pôs na mulher. Ele espera realizar-se como ser possuindo carnalmente um ser, ao mesmo tempo que consegue confirmar-se na sua liberdade através de uma liberdade dócil. Nenhum homem consentiria em ser mulher, mas todos desejam que haja mulheres. "Agradecemos a Deus por ter criado a mulher". "A Natureza é boa, pois deu a mulher aos homens". Nestas frases, e outras análogas, o homem afirma uma vez mais com arrogante ingenuidade que a sua presença neste mundo é um facto indiscutível e um direito, enquanto a da mulher é um simples acidente: um bem-aventurado acidente.

Aparecendo como o Outro, a mulher aparece ao mesmo tempo como uma plenitude de ser em oposição a essa existência cujo vazio o homem sente em si; o Outro, sendo posto como objecto aos olhos do sujeito, é posto como em si, logo como ser. Na mulher encarna-se o nada que o existente traz no coração, e é procurando alcançar-se através dela que o homem espera realizar-se.

Simone de Beauvoir - "O segundo sexo"

2 comentários:

O QUATORZE disse...

Boa Noite
Mas não são os outros que se complementa, Tanto sendo uma outra ou um outro são iguais
Amizade
Luis

Fritz Cooper disse...

precisamente por serem diferentes, é que há necessidade de complementariedade mútua.se assim não fosse, as problemáticas (do Génese e a Social), não fariam sentido. a questão é saber como e qual a forma correcta de se complementarem sem se escravizarem, sem se anularem, não para serem iguais, mas para estarem ao mesmo nível.só assim poderão ser felizes.