quinta-feira, 4 de setembro de 2008

para melhor entender o nosso homem

Há outra função que o homem de bom grado confia à mulher: sendo objectivo das actividades dos homens e fonte das suas decisões, ela apresenta-se concomitantemente como medida dos valores, revelando-se um juiz privilegiado.
Não é somente para possuí-lo que o homem sonha com um Outro, é também para ser confirmado por ele; fazer-se confirmar por homens, que são seus semelhantes, exige dele uma tensão constante.
Eis por que ele deseja que um olhar, vindo de fora, confira à sua vida, aos seus empreendimentos, a ele próprio, um valor absoluto. O olhar de Deus é oculto, estranho, inquietante: mesmo nas épocas de fé, só alguns místicos são por ele atingidos. Foi à mulher que amiúde atribuíram esse papel divino.
Próxima do homem, por este dominada, ela não põe valores que lhe sejam alheios: e no entanto, como é outra, ela permanece exterior ao mundo dos homens e é, portanto, capaz de apreendê-lo com objectividade. Cabe a ela, em cada caso singular, denunciar a ausência ou a presença da coragem, da força, da beleza, confirmando ao mesmo tempo de fora, o seu valor universal.
Os homens acham-se demasiado ocupados com as suas relações de cooperação e luta para se constituirem público uns dos outros: não se contemplam.
(...)
O ideal do homem médio ocidental é uma mulher que se submeta livremente ao seu domínio, que não aceite as suas ideias sem discussão, mas que ceda diante dos seus argumentos, que lhe resista com inteligência para acabar por deixar-se convencer.
Simone de Beauvoir - "O Segundo Sexo"
(temos aqui a origem de muito sarilho!
sempre me interroguei como sendo os homens tão susceptíveis a críticas - especialmente os sensíveis, que, convenhamos, são a maioria - os vemos tantas vezes a perguntar-nos: o que achas disto? como farias tu aquilo?;
parecia-me contraditório e campo fértil de conflitos;
estão a ver a coisa? um "eu faria" é completamente despropositado, nós não somos eles e o que quer que se siga a este prenúncio, dá asneira; um "o que tu podes fazer" é do pior: eles sabem muito bem o que podem fazer, resta saber se estão para aí virados; um diplomático "tu vais encontrar a melhor solução" deixa-os completamente frustrados: não foi para ouvir isso que colocaram a sua máxima dúvida à nossa apreciação; um "numa situação semelhante fiz" provavelmente vai deixá-los desconcertados: eles dificilmente fariam algo semelhante (contudo, deve ser a melhor das opções já descritas, ao cabo e ao resto permite adiantar a pedida sugestão sem melindres - até porque se já fomos dela cobaia, a sua credibilidade está minimamente asegurada - e se não correr bem já é usual que os deixemos desconcertados); um calmo e, atenção, muito meiguinho (olha a sensibilidade! não convém resvalar para a indiferença - género: "sei lá eu, governa-te, que já estás crescido") "eu também não sei, querido" vai brilhar: solidariedade garantida, presença e partilha sem repreensão, objectivo quase cumprido - falou, desabafou, provavelmente já ganhou em perspectiva e lucidez - a masculina certeza de que se consegue resolver tudo sozinho absolutamente intacta e uma implícita pena por não ter a almejada resposta, tudo junto garantem a total ausência de crítica que, não esqueçam NUNCA, é o objectivo final, e um resto de serão tranquilo)
(este excerto deteve-me por umas horas: em cada frase, cada ideia, reencontrei cenas vividas, frases ouvidas, sentimentos vagos, uns dolorosos, outros divertidos, que passaram por mim e que encontram aqui uma brilhante tradução)

4 comentários:

Fritz Cooper disse...

"O ideal do homem médio ocidental é uma mulher que se submeta livremente ao seu domínio, que não aceite as suas ideias sem discussão, mas que ceda diante dos seus argumentos, que lhe resista com inteligência para acabar por deixar-se convencer."

este postulado pretende,de uma forma velada,reforçar o conceito do chauvinismo masculino e o papel de vítima que supostamente a mulher está sempre sujeita.esta, coitada, apesar de ser muito mais iluminada, esclarecida, pragmática,tem que fazer o papel de saco de gritos e aguentar pacificamente, tendo ainda que ser contemporizadora, condescendente,compreensiva, perante a (aparente)indecisão masculina, e ter o ónus de encontrar a resposta que realmente se adequa à mega sensibilidade,ambiguidade e calimerice do chauvinista ocidental (médio).convenhamos pois, que não é nada fácil ser mulher!

depois,constata-se a inacreditável pretensão de a mulher aceitar pacifica e condescendentemente essa figura terrível que é a crítica.não, essa não lhe faz a menor mossa, não a perturba, não a põe em causa;afinal,pq haveria um ser tão superior incomodar-se com umas criticazinhas?isso é apenas exclusivo do chauvinista (médio), que salta, grita, resfolega,dicute, amua, sempre que lhe é dirigida alguma crítica, pois sente que o seu domínio está a ser posto em causa.afinal, ele como resolve tudo sozinho e só pede apoio não para se orientar,mas sim para obrigar a mulher a corroborar ( a bem ou a mal) o seu ponto de vista, não pode aceitar críticas,convenhamos !

são mesmo fracos os chauvinistas.assistem estupefactos à impassividade da mulher qd a esta criticam a forma como dispôs os copos no armário, como dobrou os panos da cozinha,como deixou o lençol com vincos ao fazer a cama,já para não falar na ainda mais impressionante impassividade, se lhe criticam os sapatos, o cabelo, a roupa, o colar, o relógio, a forma como faz festas ao cão. nada a afecta.

mas talvez haja uma coisa que a afecte: será qd o chauvinista calimero(médio)ouve "sei lá eu, governa-te, que já estás crescido",se passa,reage violentamente e critica com veemência essa clamorosa frase, aí ela toca-se e não gosta da crítica :-afinal quem é ele para criticar as minhas críticas, para pôr em causa os meus conselhos ?era só o que me faltava! eu que uso sempre de tanto tacto, compreensão e sensibilidade, e ele ainda tem o desplante de me criticar ???

O QUATORZE disse...

Boa Tarde
Sim senhra
Amizade
Luis

redeazul disse...

questões em nota de rodapé:
porque será que as críticas dirigida à mulher passaram pelas tarefas domésticas (mal) desempenhadas e pela aparência física e atitude corporal?
porque será que a frase "sei lá, governa-te que já estás crescido", mesmo reconhecidamente não recomendada(lá se disse que resvalar para a indiferença era de evitar),suscita a reacção violenta do autor?
porque será que essa frase, que é mais um anti-conselho, é tomada por conselho?
porque será que a figura feminina aparece associada à ideia de impassibilidade e a masculina à da violência?

a propósito: não é fácil ser mulher mas é muito bom!

Fritz Cooper disse...

as críticas não são à eficiência dos trabalhos domésticos, mas sim querer ilustrar,através delas, as coisas de somenos importância e sem valor com que as mulheres se perturbam e perante as quais não aceitam críticas.os homens serão susceptiveis,aceito.mas, apenas pretendo demonstrar que as mulheres o são tb,e, se calhar, por motivos menores.

é uma verdade universal que o aspecto físico é o calcanhar de aquiles de qq mulher.não se pretende diminuir isso, acho aliás, q se deve alimenta-lo.mas, a mesma confirmação de que o homem precisa qdo coloca a sua máxima dúvida para apreciação,e a forma como depois lida com essa mesma apreciação,é precisamente a mesma que a mulher precisa qdo está hesitante na cor dos sapatos ou se são saias ou calças: não quer q o homem lhe diga o q deve decidir,quer apenas que ele confirme que lhe ficam bem, que é bonita com saia ou com calças.eis a susceptibilidade latente uma vez mais,e como se vê,longe de ser um exclusivo macho.até pq se o homem disser q os vermelhos são mais bonitos, ela não só leva na mesma os pretos, como ainda se enfurece por achar q ele disse q os pretos lhe ficavam mal.e tem ainda um agravante:os homens não se contemplam entre si,por formatação genética, de acordo;ora em relação às mulheres a contemplação existe sim e é crucial,pois os homens precisam da confirmação da mulher,é certo,mas esta precisa não só da do homem como tb da das outras mulheres.

a tal frase anti-conselho:é um anacronismo dizer que tal pode ser proferido com meiguice,tacto,e desprovido de indiferença, pois a violência da frase é tal que anula todas e quaisquer boas intenções.por definição.
é um pouco como qd eramos crianças e, já fartos de andar a pé, pediamos um colo.nem sempre o teriamos, mas justificações para a recusa como "o pai tb está cansado, só mais um bocadinho",nos dava força para continuar,ao invés, dizerem-nos que já eramos crescidos e q aguentavamos melhor do q os mais velhos,gerava um sentimento de revolta e de desamparo inevitáveis,que acabavam por tornar o percurso muito mais penoso.o autor reagiu violentamente pq já ouviu e não gostou,e tb pq seria incapaz de dar tal resposta a alguém por quem tivesse,nem que fosse um pingo,de sentimento.

as ideias associadas de impassibilidade e violência, decorrem desde logo da natureza dos planetas de onde ambos provêm.isso poderia ser suficiente à laia de justificação.mas acrescento q isso não é assim tão linear, pq a violência física não latente nas mulheres, pode ser suplantada pela violência psicológica e é sabido q qq mulher domina as psicologias( dela e dele),muito melhor do q qq homem;portanto, basta querer ser violenta.o homem é violento,sim,mas se calhar até usa isso como tentativa de afirmação.por outro lado, a aparente impassividade da mulher, confere-lhe um poder de atacar de surpresa q nenhum homem,por mais violento q seja, consegue vencer.assim, não posso concordar com esses estereotipos, pq a violência e a impassividade estão patentes em ambos os sexos, só que de formas diferentes.

pode ser difícil ser mulher, concordo.tb é difícil ser homem.mas a mulher, difícil ou não, impassível ou não, agressiva ou não,é a mais bela das criaturas.e, se não fossem assim, não tinham piada nenhuma.portanto, que assim continuem pela eternidade.

já agora,qual será o calcanhar de aquiles dos homens? já cantava o bom do palma :"que posso eu fazer ao ver-te acenar a ferida universal? que posso eu fazer ao avistar tão delicioso mal? Que posso eu fazer qd me sinto fora de mim ? que posso eu fazer, senão ir até ao fim ? "
e as mulheres sabem-no !!!